26/12/07

Wise Up

Aqui vai, para todos os Castrejos no Mundo, a música mais bonita do Mundo.

E muito cuidadinho na estrada! Quero-vos ter a todos em 2008! Mesmo aqueles que não gostam de mim!

21/12/07

Um pequenito que o vivo sol da vida acarinhou

Torga outra vez; agora a acompanhar os meus votos de “Bô Natal” para todos.

HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga, Antologia Poética, Coimbra, Ed. do Autor, 1981


BÔ NATAL

19/12/07

O Natal dos Cães


Sob o céu estrelado do Pólo os cães puxadores do trenó finalmente descansam. O dia foi rude e o dono também! Este nunca está contente, sempre a chicotear e a fazer-se puxar! Nunca tem um carinho ou um agradecimento…

- O que eu daria para poder viver uma bela aventura - suspira um dos jovens cães.

É então que o mais velho dos cães diz: - Bem depressa será Natal; no céu vai passar a Grande Rena conduzindo o Velho Homem. Vamos propor-lhe que este ano nos deixe puxar o seu trenó, para que a Rena repouse.

A ideia foi acolhida com alegria, e todos os cães adormeceram com os olhos cheios de estrelas.

Tradução livre da história de 17 de Dezembro das 365 Histoires d’animaux – Éditions Hemma – Belgique (autoria colectiva).

12/12/07

O sonho do cartógrafo


Dói-me a alma ao olhar para este mapa!

Dói-me ver uma terra conhecida pela união, pela fraternidade, pelo comunitarismo e pela ajuda mútua, retalhada em bocados coloridos por um cartógrafo alucinado, segundo as conveniências mais ou menos assumidas, de uns quantos indivíduos, que, para imporem as suas opiniões (enquanto escondem as suas reais e egoístas ambições!), estão a destruir um património afectivo criado por gerações e gerações de seres humanos que, unidos, lutaram desde tempos imemoriais contra um meio ambiente rude e hostil para criar uma terra que fosse boa e amiga para todos.

Este mapa, sonhado por um cartógrafo perverso e degenerado, não é o mapa da minha terra!

Aliás, a minha terra não precisa de mapas! Vai de Portelinha ao Ribeiro de Baixo e é demarcada pelos marcos iniciais da fronteira mais velha da Europa e pelas extremas das freguesias das boas gentes de Lamas de Mouro e da Peneda.

A minha terra é Dorna, é a Ameixoeira, é Barja Trabessa, é Campelo, é Curral do Gonçalo, é a Bila, é o Ribeiro de Cima, é a Adofreire, é o Bido…, a minha terra são todas as terras de Castro Laboreiro! E por isso é que a minha terra é a terra mais bonita do mundo.

A minha terra não precisa de mapas, porque nunca ninguém precisou de um mapa para amar a própria mãe!

05/12/07

Em meu nome NÃO!

No Jornal Regional.com foi publicada em 04/12/2007 esta notícia que tem a sua fonte na “Voz de Melgaço”, que como se sabe é um Jornal Local conhecido por não ser nada parcial, nem politicamente comprometido!

Desta notícia publico aqui o seguinte extracto:

«Foi também dito ao Sr. Director que isto não surgiu espontaneamente, pois este novo movimento de agrupamento é regenerador e traduz-se, não numa estrutura marginal minimalista e elitista, mas sim em quatro estruturas genuínas bem definidas. Pois estas são fruto de uma tomada de consciência mais alargada, do interior da população Castreja, que viu a necessidade de voltarem os olhos e as atenções empenhadas, para a sua terra e as suas raízes e para os enormes prejuízos que nos têm vindo a ser provocados pelos impreparados, pelos incompetentes e mal formados, e não esquecendo algum dos muitos interesses ilegítimos externos, que nem sequer respeitam a memória das suas próprias raízes».

Ora, assumindo que o que se diz neste extracto, corresponde ao que foi dito na reunião em causa, gostaria de saber se o caro conterrâneo que proferiu estas afirmações tem consciência de que não falou em nome de todos os compartes Castrejos! Pelo menos em meu nome não falou! E embora eu não seja comparte porque não sendo morador em Castro, não me encaixo na definição de comparte prevista no n.º 3 do art. 1.º da Lei n.º 68/93, de 4 de Setembro, a minha família é-o tanto como o caro conterrâneo que proferiu tais afirmações! Isto no pressuposto que o caro conterrâneo é, legal e efectivamente, morador em Castro, porque se não o for é tão comparte como eu!

De qualquer forma, saiba o caro conterrâneo (que suponho seja um dos representantes dos Conselhos Directivos das associações de Baldios recentemente constituídos) que pelo menos eu e a minha família:

  • Não nos inserimos nessa “tomada de consciência mais alargada do interior da população castreja que viu a necessidade de voltarem os olhos e as atenções empenhadas para a nossa terra e para a sua terra e para as suas raízes”. O caro conterrâneo e os que ele representa é que têm andado distraídos ou mal informados, pois há gerações e gerações de castrejos que voltaram e continuam a voltar olhos e as atenções empenhadas para a nossa terra e para as suas raízes.
  • Não nos sentimos prejudicados pela Administração de Baldios que anteriormente geriu todos os baldios das freguesias.
  • Não somos malcriados, insolentes e arrogantes ao ponto de insultar os castrejos que pertenceram à anterior Administração dos Baldios (alguns já falecidos), chamando-lhe impreparados, incompetentes e mal formados. Pelo contrário, temos por eles e por todos os castrejos (até prova em contrário) a máxima estima e consideração e sentimos gratidão pelo trabalho que desenvolveram tanto nessas como noutras funções com interesse para a freguesia.
  • Não sabemos a que interesses ilegítimos externos se referiu! Quererá o caro conterrâneo concretizar e objectivar?

Em suma, gostaria que o caro conterrâneo ficasse a saber que, embora a ele lhe possa ter parecido, na sua inconsciente ou consciente sobrançaria, que falou e fala em nome de todos os compartes castrejos, não o fez, nem o faz, nem nunca o fará, porque não tem legitimidade para isso e, mesmo que a tivesse, em meu nome e no da minha família não falou, nem fala, nem falará, isso garanto-lhe eu!

03/12/07

Castro Laboreiro - Aldeia de Portugal

A ATA classificou Castro Laboreiro como “Aldeia de Portugal”.

A ATA (Associação do Turismo de Aldeia) é uma associação fundada pela ADRIL (Associação de Desenvolvimento Rural Integrado do Vale do Lima), pela ADRIMINHO (Associação de Desenvolvimento Rural Integrado do Vale do Minho), pela SOL-DO-AVE (Associação de Desenvolvimento Rural Integrado do Vale do Ave) e a ATAHCA (Associação de Desenvolvimento das Terras Altas do Homem, Cávado e Ave), que são, todas elas, entidades locais gestoras do programa LEADER.

«A ATA - Associação do Turismo de Aldeia tem por objectivos o apoio aos associados inscritos na Direcção Geral de Turismo nas modalidades de alojamento turístico no âmbito do Turismo de Espaço Rural, e designados por Turismo de Aldeia, Casas de Campo, Casas de Abrigo, e outras que venham a ser consideradas na lei, bem como a defesa dos seus interesses específicos e a garantia da genuinidade do produto turístico, tais como:

-Desenvolver as relações públicas e de representação exigidas pelo dever que lhe incumbe de ser protagonista comprometido perante o produto turístico e o seu desenvolvimento ambiental, económico e social;
-Promover a realização de jornadas de estudo, Seminários, Congressos e realizações similares;
-Conduzir acções de promoção e comercialização do produto turístico dos seus associados, tanto no país como no estrangeiro;
-Participar em reuniões oficiais, feiras e outras manifestações em que o Turismo de Aldeia deve fazer-se representar;
-Elaborar meios de divulgação, tais como brochuras, mapas, vídeos e diapositivos;
-Elaborar meios de divulgação, tais como brochuras, mapas, vídeos e diapositivos;
-Especificar condições, preços, serviços a prestar e níveis de qualidade;
-Manter e fazer funcionar uma sede e os serviços convenientes, entre os quais, marcações, reservas e atendimento;
-Associar-se ou filiar-se em outros organismos quando tal se mostre conveniente.

O Projecto “Aldeias de Portugal” «é dirigido para os seguintes aspectos:
-Alojamento
-Artesanato
-Produtos locais
-Itinerários culturais
-Património cultural».

E os seus objectivos gerais são:

- Potenciação do Turismo no espaço Rural e aumento das actuais taxas de ocupação.
- Fixação e rejuvenescimento das populações rurais.
- Valorização e intercâmbio cultural.
- Recuperação e promoção do Património Cultural Local.
- Criação de um complemento à economia familiar.
- Criação de uma rede europeia de alojamento em Turismo de Aldeia.

Por fim importa saber que «As Aldeias de Portugal constituem a rede nacional de aldeias rurais singulares insinuadas em paisagens idílicas, preservando um passado de tradições expresso no seu edificado, nas suas gentes, cultura, usos e costumes, que por sua vez integram a rede europeia Aldeias de Tradição/Villages of Tradition, definida pelos mesmos princípios».

in: http://www.aldeiasdeportugal.com.pt/main.php

Se querem a minha opinião, o futuro das terras economicamente deprimidas e demograficamente desertificadas, como Castro Laboreiro, passa por projectos desta natureza que potenciam o turismo de qualidade e simultaneamente estimulam a protecção do património e não por investimentos descaracterizadores da paisagem e do ambiente natural, tais como Barragens, Eólicas e quejandos. Mas esta é somente a minha modesta opinião.

30/11/07

Sondagem sobre a Barragem

Vamos lá então saber quantos estão ou não estão de acordo com a hipotética construção de uma barragem na Assureira, conforme se relata no "post" abaixo.

Façam o favor de votar!

Ah! Para quem não sabe, "Tanto me fai", é uma expressão castreja que significa "Tanto me faz", ou seja é-me indiferente.

23/11/07

Alerta-Aproveitamento Hidroeléctrico da Assureira


Por agora é só uma hipótese e tudo leva a crer que não irá passar disso, contudo, embora seja matéria eminentemente técnica, é melhor por-se ao corrente do que é que consta previsto no designado «Projecto de Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico» (PNBEPH):

«Para o aproveitamento da Assureira adoptou-se o NPA(?) da albufeira à cota 750m, de forma a garantir uma capacidade de armazenamento considerada adequada, representando um aumento de 7m relativamente ao previsto em estudos anteriores. Verifica-se ainda que a rentabilidade económica do aproveitamento melhora quando se aumenta o NPA(?) da albufeira.

Foi adoptada uma solução com central reversível, dado que esta alternativa apresenta condições económicas mais favoráveis quando comparada com a alternativa não reversível.

A restituição dos caudais turbinados será realizada no interior da albufeira existente de Alto Lindoso, à cota 338m.

O caudal do equipamento adoptado foi de 25m3/s, considerando um valor adequado em função do escoamento afluente à albufeira, e que é de 10m3/s superior ao origionalmente previsto.

A barragem foi prevista do tipo betão-gravidade, com uma altura de 35m, criando uma albufeira com uma capacidade de armazenamento de 4hm3. O circuito hidráulico será constituído por um túnel com um desenvolvimento total de 12,2Km e a central será subterrânea e ficará implantada próximo da restituição na albufeira de jusante.

A queda bruta nominal disponível será de 412m e a potência disponível será de 88MW, permitindo uma produção de energia de 119GWh/ano. Para a taxa de actualização de referência adoptada de 6%, a rentabilidade é francamente interessante (a TIR(?) é de 12,4%), sendo o custo actualizado da energia produzida de 0,053€/kWh.
in Projecto de PNBEPH

Apesar da referência, neste último parágrafo, à elevada rentabilidade, a verdade é que nas conclusões do Projecto de PNBEPH, a hipotética barragem da Assureira é uma das não incluídas para efeitos do futuro PNBEPH (lembrem-se que os estudo que vimos citando se trata de um projecto com diversas alternativas a considerar e não uma decisão definitiva), por se considerar que a sua implementação não é necessária para o cumprimento das metas de potência instalada estabelecidas.

Espero que assim seja, porque embora me considere, em muitos aspectos, um progressista, no que diz respeito à protecção do ambiente, das paisagens naturais e do património da minha terra sou um conservador extremista, fanático e perigoso.

29/10/07

As perdizes


Já há muito tempo que não caço nos belos montes da nossa terra. Primeiro os meus velhos camaradas de caça foram falecendo ou "reformando-se" e eu fiquei assim como... sózinho, e acabei por não me integrar em mais nenhum grupo de caçadores castrejos. Depois, a distância também influiu! Sim porque isto de fazer cerca de duas centenas de quilómetros para ir caçar a Castro, afecta não só a carteira mas também a disposição!

Contudo, nestes belos dias de Outono, continuo a sentir o "vicio" e a nostalgia da caça e a lembrar-me de tantos e tão bons momentos passados na senda das perdizes em Porquéguas, no Talefe ou em Barreiras Brancas, na companhia dos meus velhos companheiros e mestres não só na arte da caça mas sobretudo na arte da vida.

Por eles e para os meus caros conterrâneos que, por esta época do ano, continuam sadiamente a galgar e a usufruir dos nossos maravilhosos montes, praticando a nobre arte, fica aqui um grande e forte abraço, com votos de boa sorte, de outro caçador, não praticante é certo, mas para sempre caçador. E convém não esquecer que tal como disse Miguel Delibes, um famoso caçador e escritor castelhano: "Aquilo que um caçador é capaz de fazer por uma perdiz, só outro caçador o consegue entender"


12/10/07

Quando tomavit dominus rex Castellum de Laborario

Afonso Henriques

Estávamos em finais da década de 30, inícios da de 40, do século XII e os vales do Minho e do Lima estavam a ferro e fogo. Afonso Henriques, galvanizado pela vitória conseguida sobre os Sarracenos na batalha de Ourique (25 de Julho de 1137), vira a sua atenção para a fronteira norte do Condado/Reino e invade as terras de Toronho (terras da margem direita do rio Minho cujo o centro de referência era a cidade de Tuy), violando, assim, de modo flagrante, o Pacto celebrado em 4 de Junho de 1137, nesta mesma cidade, no qual tinha ficado estabelecido que tais terras eram propriedade do, auto-proclamado Imperador de toda a Espanha, Afonso VII de Leão.


Afonso VII de Leão

Saliente-se que, antes deste Pacto, tais terras, pertencentes à Condessa Teresa de Leão, passaram a pertencer, por sucessão, ao seu filho Afonso Henriques que, por isso e ainda pela adesão voluntária de parte da nobreza galega e também pela força das armas, se tinha tornado o senhor absoluto de todo o sul da Galiza, nomeadamente das províncias de Toronho e Límia (região do vale do Lima, sensivelmente situada, entre Ponte de Lima e Ourense), suserano dos condes galegos Gomes Nunes e Rodrigo Peres; vencedor da batalha de Cerneja e senhor da cidade de Tui.

Furioso com o primo irrequieto, o Imperador ordena a invasão do Minho e consequentemente, o Castelo de Laboreiro (de capital importância estratégica por se situar entre os vales dos dois rios, dominando os, então, chamados Montes de Laboreiro) é tomado pelos Leoneses capitaneadas provavelmente pelo Conde Galego Fernando Anes (Enes), Alcaide de Allariz.


Afonso Henriques, com aquela inquebrantável energia e visão estratégica que o haveriam de tornar num dos mais temidos senhores da guerra Europeus do Séc XII, não se fica! E, provavelmente, em 1140, cercou e retomou o Castelo de Laboreiro devolvendo-o ao domínio do, então e apenas auto-proclamado, Reino de Portugal.




Na altura o Castelo deveria ser uma velha fortaleza roqueira assente sobre as ruínas de uma povoação fundada, algures, na idade do ferro. Fortaleza esta que terá sido, eventualmente, restaurada entre o Sec. IX e o Séc. X, quando esteve sob o domínio da família Mendo, Mendes ou Menendez, a quem as terras dos Montes Laboreiro, juntamente com a região de Bubal e maior parte da região da Límia, foram doadas por Afonso III, o Magno, Rei das Astúrias, de Leão e da Galiza (866-910) e entre outras coisas, conquistador das cidades do Porto e de Coimbra.

Com efeito tais terras foram doadas ao Conde do Porto e Tuy, Hermenegildo Mendo, como prémio pela vitória alcançada contra o Conde Galego Witiza, ou Guicia, que revoltando-se contra Afonso III, delas se tinha apoderado. Convém ter presente que a lenda atribui ao neto do Conde Hermenegildo Mendo, o famoso São Rosendo (personagem incontornável da Gallecia do Sec. X), a fundação ou a refundação do Castelo de Laboreiro, isto muito embora não existam fontes documentais conhecidas que atestem, inequivocamente, esta possibilidade.

Para levar a bom porto o cerco do Castelo de Laboreiro, Afonso Henriques, careceu do apoio da nobreza e do clero da região. E tal apoio foi-lhe dado! Designadamente, a abadessa do mosteiro de São Salvador de Paderne, Elvira Serrazins ou Serracine, contribuiu com dez éguas e respectivas crias; 30 moios de vinho (para animar a soldadesca sedenta, digo eu!); um magnífico cavalo avaliado em 500 soldos e ainda cem áureos.

Agradecido, Afonso Henriques, em 16 de Abril de 1141, concede uma carta de couto ao mosteiro de São Salvador de Paderne. Esta carta, que conta já com a bonita idade de 866 anos, e é a mais antiga referência documental conhecida sobre Castro Laboreiro, ou pelo menos sobre o seu castelo, reza assim, na parte que nos importa:

«(…) isttum fretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex Castellum de Laborario».

Ou seja:

«Este valor e este serviço foram prestados quando o Senhor Rei tomou o Castelo de Laboreiro».

E assim, como diz o ilustre e criterioso historiador Castrejo, Padre Manuel António Bernardo Pintor (Ribeiro de Cima, 1911 – Monção, 1996): «Este castelo em ruínas tem a subida honra de ter experimentado a bravura indómita do primeiro rei de Portugal que nos deixou o primeiro testemunho histórico da sua existência.»

Bibliografia:

ALMEIDA, Carlos A. Brochado de – “A Couraça nova da Vila de Melgaço; Resultado de uma intervenção arqueológica na Praça da República”; Portvgália, nova série, 2003

AMARAL, Diogo Freitas do – “D. Afonso Henriques – Biografia”. Bertrand Editora; 3.ª Edição-2000.

DOMINGUES, José – “O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro, “adito” para o debate”; Núcleo de Estudos e pesquisa dos Montes Laboreiro, 2003.

DOMINGUES, José – “O Direito de padroado da igreja de Castro Laboreiro na Idade Média”, Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço, 2002.

PINTOR; Manuel António Bernardo – “Castro Laboreiro e os seus Forais”, separata de Bracara Augusta, vol. XVIII-XIX, n,º 41-42, Braga, 1965.

PINTOR; Manuel António Bernardo –“ O Recontro de Val-de-Vez. Onde foi?, Braga, 1977.

RODRIGUES, Teresa de Jesus –“D. Afonso Henriques e o Alto Minho”, Revista de Guimarães, n.º 106, 1996.

TEJEDO, Manuel Carriedo – “XI Centenário de San Rosendo (907-2007); Patrono de Mondoñedo-Ferrol e Símbolo de Galicia”; Nuevas, 2007.

04/10/07

No "renque"

Se consultarmos um dicionário ficamos a saber que “Renque” deriva, etimologicamente, do Provençal (Occitano) “Renc” e/ou do Germânico “Hring” e significa uma fileira, uma fila ou uma série de pessoas ou coisas alinhadas. Trata-se de uma palavra em franco desuso no português norma actual, ignaramente substituída pelo anglicismo “Rank” ou “Ranking”.

Apesar destes modernismos bacocos, há um poema famoso de Alberto Caeiro (pseudónimo de Fernando Pessoa) que imortaliza a palavra "Renque". Chama-se “Um Renque de Árvores” e reza assim:

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!


Em Castro Laboreiro, o “Renque” é um sítio informal, onde costumeiramente os Castrejos se encontram (se alinham!) nos seus momentos de ócio ou a caminho dos seus afazeres quotidianos e, prazenteiramente, se demoram a pôr as novidades em dia, falando do tempo, da agricultura ou de qualquer outra novidade mundana que os traga intrigados. Embora com conotações bem mais modestas, é algo assim como o “Largo” dos alentejanos tão bem descrito e caracterizado por Manuel da Fonseca na sua obra intitulada o “Fogo e as Cinzas”.

Eis aqui esta preciosa fotografia onde se vê Castrejos autênticos num Renque autêntico:



Autor: Phoenix Ocean
Fonte: Flickr

01/10/07

21/09/07

Em jeito de homenagem

Deixo aqui este filmezinho em jeito de homenagem às minhas conterrâneas e conterrâneos que deram vida ao extinto Rancho Folclórico de Castro Laboreiro.

Porque não faze-lo renascer? Não era propriamente o melhor Rancho do mundo! mas era o NOSSO Rancho!



(Este vídeo foi colocado no Video Goggle, em 21/11/2006, por autor não identificado)

18/09/07

Fronteiras

É facto consabido que as fronteiras político-administrativas dificilmente coincidem com as fronteiras culturais e linguísticas.A Galiza nesse aspecto é um "case study", tanto no que concerne às suas fronteiras orientais, com as Astúrias e com León (a designada Galiza Irredenta), como no que concerne à sua fronteira meridional, com Portugal (Alto Minho e Trás os-Montes). Aliás, neste último caso, o mesmo se pode dizer se analisarmos a questão do lado português!

O documentário que se segue, realizado por Rúben Pardiñas e divulgado na Televisión de Galicia no dia 25 de Julho de 2007, demonstra precisamente isso e ainda algo de mais importante: - Que as segmentações politíco-territoriais, só por si, são incapazes anular a comunhão cultural e linguística vigente entre os Povos de matriz galaico-portuguesa.

O documentário tem a duração de 57:21m, para os que não tiverem paciência aconselho, pelo menos, que vejam do minuto 43:27m em diante, garanto-vos que não se arrependerão!

14/09/07

O tratorzinho

Era sexta-feira à tarde e, à sombra da velha muralha, a feira de Melgaço fervilhava de actividade. Eu lá andava, de tenda em tenda, a esvoaçar por entre as pernas dos fregueses. Passei sem olhar pela tenda dos sapatos, e mesmo antes de chegar à tenda dos “pitinhos” e dos coelhos, encontrei aquilo que procurava: - A tenda dos brinquedos!

Os meus olhos, deslumbrados, esbugalharam-se! Estavam lá todos aqueles que interessavam. Os camiões, os carrinhos, as espingardinhas de bareta e, sobretudo, aquele que me trazia cobiçoso desde que o tinha visto nas mãos enlameadas do meu vizinho, com que brincava às tardes, depois da escola: - Um tratorzinho com carroça e tudo.

Fitei-o sem saber se lhe havia ou não de tocar! Olhei para o dono da tenda e este lançou-me um despreocupado e convidativo olhar azul. Não resisti! Sentei-me no chão, peguei-o e comecei a roda-lo por uma vereda imaginária, tendo o máximo cuidado para fazer bem as curvas, de modo a que a carroça, carregada de lenha, não se virasse.

- “Larga isso filho”. Troou a voz da minha mãe, rasgando a nuvem translúcida da minha fantasia.

- “Mas Mãe é igualzinho àquele que eu queria”. Disseram os meus olhos subitamente húmidos.

- “Non pode ser! É mui caro!” Disse implacavelmente a minha mãe em tom de fim de conversa.

-“Dá-lho mulher, dá-lho! Ca mais bale um gosto na bida do ca cem bombos na hora da morte”. Disse a voz meiga e cansada da minha avó.

O tratorzinho já há muito tempo que não existe, perdi-o nalguma recôndita vereda da vida, mas há-de sempre existir o sorriso doce e maternal da minha falecida avó, enquanto os meus beijos felizes lhe orvalhavam o rosto agreste.

11/09/07

No dia que t’eu nõ bêjo, meus olhos são duas fontes

JOSÉ LEITE DE VASCONCELOS (Ucanha, 07/07/1858 - Lisboa, 17/05/1941), de quem já tive a oportunidade de vos falar no “post” intitulado Conversa Castreja I, é considerado o “pai” da Antropologia portuguesa moderna. Ora, este eminente cientista social português, publicou em 1916 no volume XIX, a págs. 270 a 280, da Revista Lusitana (da qual foi fundador) um texto designado “Excursão a Castro-Laboreiro”, cujo primeiro parágrafo passo a citar:

«Em 1904, estando a veranear nas Agoas do Peso, fiz uma excursão a Castro-Laboreiro em companhia do Rev.º Manoel José Domingues, Abbade de Melgaço. A excursão foi muito breve. Partimos num dia de manhã e voltamos no dia seguinte depois do almoço. Tomei porém algumas notas ethnographicas e dialectologicas que poderão ter utilidade para os estudiosos; e por isso aqui as publico, pouco mais ou menos na mesma fórma em que as tomei».

Seguem-se a descrição da “Excursão”, bem como as notas, apontamentos e reflexões do cientista, às quais, provavelmente, voltarei em “posts” futuros, uma vez que o que agora me interessa é publicar umas curiosas amostras de poesia popular coligidas em Castro pelo Mestre Leite de Vasconcelos e que se encontram a págs 277 e 278.

Ora aqui vai:

Adeus, ó bila de Crasto,
As costas lh’eu bou birando,
Im que lh’eu as costas bire,
Meu coraçom bai chorando.

Adeus, ó bila d’Acastro,
Probência de Tras-os-montes,
No dia que t’eu nõ bêjo,
Meus olhos são duas fontes (1)

Adeus, ó terra de Crasto
As costas te bou birar,
Bou para o bal de Chabes (2)
Donde m’eu bou desterrar.

Fita berde no chapéu
Meu amor, nõ lh’a ponhais,
Dá-lh’o bento abole, abole…
E eu côido que m’açanais!

Heid’ amar o cordom berde,
Im quanto tiber berdura,
Hei-d’amar a quem quijer
Q’inda nõ fije scritura.

Neste lenço deposito
Lágrimas que por ti choro
Por nõ poder alcançar
Os braços de quem adoro

Esses teus lindos olhos
Som cadeias de bom ferro,
Prisões que me a mim sigurã…
Eu outras já as nõ quero.

Alfaite, guarda a filha,
Nõ na ponhas na jenela,
Os soldados da marinha
Nõ tirã os olhos dela.

Alfaites nõ som homes,
Nem se lhes póde chamar,
Quando pérdim uma agulha,
Logo se põ a chorar!

(1) Variante insciente de uma cantiga aplicada a Vila-Real de Trás-os-Montes.
(2) Vale de Chaves»

E pronto! Tirando os Alfaites(!) penso que toda a gente gostará de conhecer esta cantiguinhas que se cantavam na nossa Terra nos finais do Século XIX, princípios do Século XX

06/09/07

Rio Minho na Jamaica?

Esta não é sobre Castro Laboreiro, mas é tão curiosa que não resisto a contar-vos:

Sabem que existe um rio na Jamaica chamado Rio Minho? Pois é verdade! E para além do mais tem 92,5 Km de extensão (bastante menos que o nosso Rio Minho que tem 342 Km) o que faz dele o maior curso de água doce daquela ilha caribenha!




A azul: Curso aproximado do Rio Minho na Jamaica


E por obra de quem um rio na Jamaica se chama Rio Minho? Perguntam vocês com toda a razão!

É fácil de responder: - Por obra dos Espanhóis, isto porque a Jamaica foi uma colónia espanhola desde a sua descoberta por Cristóvão Colombo em 1494, até ser conquistada pelos Ingleses em 1655. Mas o que é sobremaneira curioso é o facto da grafia correctada palavra ser “Minho”, portanto na versão portuguesa, e não “Miño” como seria na versão castelhana da palavra! Há com toda a certeza uma explicação para isso, contudo não tive habilidade suficiente para a descobrir! Outra curiosidade é que a designação oficial do Rio é mesmo “Rio Minho” e não “River Minho” ou sequer “Rio Minho River”, o que é estranho se atentarmos ao facto de a Jamaica ser um país anglófono.

Já agora ficam também saber que a bela Jamaica, para além de ser a pátria dos inesquecíveis Bob Marley e Peter Tosh, do Reaggae e da religião e cultura Rastafari é a terceira maior ilha do Arquipélago das Caraíbas e é uma nação independente desde o dia 6 de Agosto de 1962. O seu actual sistema de governo é a Democracia Parlamentar e é, como quase todas as ex-colónias inglesas, um membro da Commonwealth of Nations. Para além disso importa saber que sua capital actual é a cidade de Kingston, que sucedeu a Port Royale e Spanish Town, as duas antigas capitais coloniais da Jamaica.


Espero que tenham gostado desta pequena excursão ao Rio Minho e à esplendorosa ilha da Jamaica, eu, agora, fico “prá aqui” a trautear a mais luminosa e optimista canção do grande e saudoso Marley (com quem JAH deve, seguramente, fumar uns valentíssimos charros, enquanto ensaia uns passinhos de Reaggae):

Baby don’t, worry,
about a thing,
‘cause every little thing,
is gonna be all right…

04/09/07

O Tomás das Quingostas

O Boaventura Eira-Velha, ilustre Cavenquense e autor do magnífico Blog Memórias…, num comentário ao “post” Conversa Castreja V diz-nos que embora não haja documentação que claramente o comprove é mais do que provável que tenha existido o Tomás das Quingostas, que terá sido uma figura equiparável ao famoso Zé do Telhado, ou seja uma espécie de Robin dos Bosques à portuguesa. Bom, a coisa deixou-me curioso e decidi fazer uma pequena investigação para tentar descobrir mais alguma coisa sobre este mítico bandoleiro raiano.

Ora, o que de mais significativo fiquei a saber foi da publicação recente (Edição de Autor) de um romance histórico com base nesta personagem, intitulado “ O Tomás das Quingostas” da autoria de José Alfredo Cerdeira.

Fiquei ainda a saber que no passado dia 11 de Agosto, no âmbito do 6.º Congresso de História Local, organizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro, foi efectuada uma apresentação deste romance por parte do seu autor e que, para além disso, também no âmbito deste Congresso, Joaquim Rocha dissertou sobre a “Vida de Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente não estive presente nesta manifestação cultural, porque não tenho qualquer dúvida tanto do interesse do romance como da mencionada dissertação.

Resta contudo a possibilidade de adquirir o Livro e de assistir à uma outra apresentação do romance que será levada a cabo pelo seu autor no próximo dia 28 de Setembro na Livraria Centésima Página sita no n.º 118/120 da Avenida Central em Braga. Infelizmente não terei a oportunidade de ir a esta apresentação, mas logo que possa adquirirei o romance em causa, embora não preveja grandes facilidades, uma vez que sendo, como é, uma Edição de Autor, deve ter sido objecto de uma tiragem reduzida.

Descobri também que no 10.º volume (X da 1.ª Série) – 1960, do Arquivo do Alto Minho existente na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, consta um artigo da autoria de Francisco Cyrne de Castro, intitulado “Notícias de Tomás das Quingostas”. Logo que tenha oportunidade irei à bela cidade de Viana procurar este artigo na Biblioteca Municipal, para vos reportar mais algumas coisas sobre o misterioso Tomás.

Outra coisa interessante, embora miúdinha, que descobri, foi que o extinto grupo galego de música Rock, chamado “Os Diplomáticos de Monte-Alto” originário da Coruña e um dos pioneiros e maiores representantes do movimento Bravú, editaram um disco em 1999 designado “Capetón” onde consta uma música intitulada “Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente também não consegui detectar nem a música nem sequer a letra, mas dá para perceber que a fama do Tomás chegou mesmo à Coruña!

Os Diplomáticos do Monte-Alto

03/09/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro IV - ANTÕES


ANTÕES [42° 3'20.42"N; 8° 8'29.41"O; Alt: 1061m]:
ANTÕES ou ANTÔNS (na pronúncia castreja) é um topónimo que poderá ter duas possíveis origens:

Poderá tratar-se do aumentativo (plural) de ANTA (monumento megalítico, formado por uma grande pedra horizontal colocada sobre outras mais pequenas e verticais).

Por outro lado o topónimo poderá ter a sua origem no plural de ANTÃO, que era a forma medieval do nome António, o que poderá indiciar que este lugar terá sido fundado por uma pessoa chamada Antão/António e que com o correr dos anos se associou o nome do lugar ao nome do seu fundador e/ou da sua família que seriam os Antões ou seja os descendentes do Antão.

Pessoalmente inclino-me para esta segunda possibilidade, uma vez que embora no planalto a norte dos Antões existam Antas (trata-se mesmo de uma das maiores concentrações de arte megalítica da Europa Ocidental!), julgo que esta palavra “Anta” nunca terá sido usada em Castro. Com efeito estes monumentos megalíticos são ainda hoje designados em Castro por “MOTAS” ou então, no caso de estarem soterradas, por “MAMOAS”.

Os ANTÕES, é uma Branda da margem direita do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para as Brandas de Picotim, Açoreira e Corveira, a primeira e a segunda na margem direita do Laboreiro e a terceira na margem esquerda.

Nos ANTÕES existe uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, cuja festa é celebrada no dia 29 de Agosto de cada ano.

30/08/07

Cabrito de Castro Laboreiro à moda antiga.


INGREDIENTES:

- 1 ou 2 Kg. de Cabrito nado e criado em Castro Laboreiro (de preferência no Ribeiro de Baixo ou de Cima!) cortado em pedaços de cerca de 100 gr;

- Vinho verde tinto qb.;

- Alhos qb.;

- Uma ou duas cebolas;

- Batatas produzidas em Castro Laboreiro;

- Azeite qb.;

- Um ramo de salsa;

- Uma ou duas folhas de loureiro;

- Uma Colher de colorau (vulgo pimentão doce);

- Sal e pimenta qb.

MODO DE PREPARAÇÃO:

Lava-se a carne com água bem fria e retira-se o excesso de gorduras. Depois coloca-se a mesma a marinar em vinha d’alho durante, pelo menos 24 horas.

Decorrido esse tempo, coze-se a carne em água temperada com sal. Quando estiver bem cozida, retira-se a água reservando-se cerca de ½ litro da mesma, após o que se rega o cabrito com um pouco de azeite.

Cozem-se as batatas à parte e colocam-se numa travessa sob a carne do cabrito.

Para o molho adiciona-se um pouco de azeite à água de cozer a carne, junta-se a cebola e a salsa picadinhas, bem como o loureiro o colorau e a pimenta. Mistura-se tudo muito bem e despeja-se uma parte sobre a carne e as batatas, colocando-se o restante numa molheira.

E pronto! Bom apetite!

28/08/07

Faltaram as barraquinhas, faltou o Rancho, faltaram as Concertinas!

Após um mês a "bergar a mola" cá estou eu de novo minha gente! E tenho a dizer que fui a Castro no 15 de Agosto e que vim de lá feliz e infeliz como normalmente acontece sempre que de lá venho!

A infelicidade decorre da pouca expressão que teve a "Festa" do 15 de Agosto. É que, para além do tempo não ter ajudado, ao contrário do ano passado faltou o clima de festa e a animação, faltaram as barraquinhas, faltou o rancho, faltaram as concertinas! Que diabo! Será assim tão difícil organizar uma "festinha" como deve ser!

Mas como disse também tive motivos para vir feliz. E são dois:

Em primeiro lugar e pela primeira vez a Concurso dos Cães foi organizado e gerido pela nóvel Associação Portuguesa do Cão de Castro Laboreiro, formada por uns bravos rapazes da nossa Terra! É assim mesmo pessoal! Finalmente esse evento tão importante para a valorização dos nossos nobres cães é organizado por nós, sem intromissões externas, designadamente por Clubes com sede no Bombarral!

O segundo motivo que me traz feliz é o de saber que o território de Castro continua imune à praga das "eólicas" que nascem por todo o lado como cogumelos degradando e desfeiando paisagens milenares (meu Deus o que fizeram à "Cabeça do Pito"!). Compreendo que haja benefícios económicos e sobretudo ambientais, mas em Castro não por favor!

31/07/07

“Força na Berga”

Criei este Blog no dia 27/06/2007, poucos dias antes de iniciar o meu (merecido!) período de férias. Desde então e até hoje tenho tentado enriquece-lo com informação, original ou pouco conhecida, quase diariamente (salvo aos fins de semana, pois também preciso de sossegar a cabeça!). O resultado não me desgosta de todo, mas tenho a consciência que poderei ainda fazer muito melhor!

Bom, sucede que amanhã regresso ao activo e, como sempre, vou ter toneladas de trabalho para pôr em dia, motivo pelo qual e com muita pena minha, durante alguns dias não terei tempo para trabalhar no Blog, sendo que, por isso mesmo, a publicação de “posts” irá ser agora muito mais espaçada. Espero que esta circunstância não faça perder o interesse das pessoas que me têm visitado, sobretudo daquelas que passam por aqui todos os dias, pois eu sei que as há!

Resta-me pois, agradecer-vos o vosso interesse e pedir-vos um pouco de paciência, pois logo que possa voltarei, com mais assiduidade, a investigar e a escrever sobre a nossa querida terra.

Aos que regressam ao trabalho como eu, desejo coragem e, como se diz na nossa terra, “Força na Berga”! Aos que vão ou estão de férias desejo que descansem o físico e o espírito e se divirtam. Para além disso, tenham muito cuidadinho nas estradas (sobretudo os nossos irmãos emigrantes Castrejos que regressam de carro!) e não se esqueçam de ir a Castro… pelo menos no 15 de Agosto (se calhar vemo-nos por lá é botamos-lhe un cacharrinho ou dous, ond’ó “Mugas” ou, entôn, ond’ó “Labaduras”!).

Um forte abraço Crastejo para todos (daqueles de escanar as costelas).

30/07/07

Conversa Castreja V

O Tio Francisco (TF) e o Vizinho (VZ) vão finalizar a sua conversa, mas não sem antes discorrerem sobre a valentia dos “homes” doutros tempos…

«(VZ): - É d’antes diç ca habia homes mui balentes. Diç que um tal tio Tato do Rodeiro que agarrou um lobo pela garganta, è que o afogou, è que lhe pegou nua perna ó cabalo grande do Tomás das Quingostas (o ladróm mais balente d’estas alturas!), è que o segurou, è que o cabalo a querê’lo coucear, è ele agarrado á perna, è que tirou c’o cabalo ó chão, mais despois o Tomás que o mataba c’um tiro, se nom fugisse.

(TF): - Esse tio Tato eu já nom conheci, mais diç q’andou com meu abô pelos fiandeiros, é dua beç que s’abriu ua sepultura na igreija é que lá aparecêrum os ossos d’ele, q’erã mui grossos, mui grossos, è que todos deziã q’erã os dele. Eu nom sei. Quem fezo a casa do Nelo Cotarelo de Queimadelo foi ele, è diç que foi ele só, é ele só é que botou aqueles côtos todos arriba; diç que nom queria que ninguém o ajudasse. É olha q’ela tem lá bôs côtos…

(VZ): - Pois huje nom hai d’esses homes; só hai p’raí uns froucinhos que nom balem nadinha. Só som bôs p’ra tapar um buraco co’eles!

(TF): - É ós pois, que bá um home dezer-lhe que nom balêm nada, ca lh’esmoqueteã a cara, ou pelo menos tira-lhe um berro como um burro…

(VZ): - Tio Francisco, bou-me comer o cardo, cá j’hã-de ser horas, è a minha Maria nom m’as garda, ca cando tal, tamém s’enrista p’ra mim como um demonho! Intóm digo-lhe adeus até de manhã, se Deus quijer. Olhe q’as noites estão frias. Intóm o milhor é meter-se um home na cama.

(TF): - Pois intóm, até demanhã, se Deus quijer. È cando te parecer, bem perqui, cà eu tenho-che múito que dezer, cá tamém já che tenho uns anos, è eles nom passã sem s’aprênder algo.»

OBSERVAÇÕES AO TEXTO:

- No texto, são referidas três personagens: - O Tio Tato do Rodeiro, o Tomás das Quingostas, e o Nelo Cotarelo de Queimadelo. São quase de certeza personagens fictícias inventadas pelo autor para contextualizar o assunto da conversa. Desconheço as nomeadas “Tato” (embora esta me diga qualquer coisa!) e “Cotarelo”, se alguém tiver alguma indicação objectiva sobre a sua existência actual ou passada agradeço que informem de forma a actualizarmos este “post”. Quanto às Quingostas, julgo tratar-se de uma localização geográfica em Castro (um sítio), porque de facto penso já ter ouvido uma qualquer referência a este nome. Mais uma vez, se alguém tiver dados mais concretos agradeço que me informem.

- “diç q’andou com meu abô pelos fiandeiros”: Um fiandeiro é trabalhador na fiação de fibras. Este aparte do Tio Francisco pode querer significar que, naqueles tempos (estamos a falar do Séc. XIX) terá existido em Castro algum actividade económica na área da fiação, ou então mais certamente, terá havido migração de Castrejos para trabalharem nas indústrias têxteis noutras zonas do país. Contudo, estas decorrências das palavras do Tio Francisco são meras especulações da minha parte, pois não possuo mais nenhum dado que substancie uma ou outra destas hipóteses.

- “é dua beç que s’abriu ua sepultura na igreija é que lá aparecêrum os ossos d’ele”: Foi a partir de um Decreto datado de 18 de Setembro de 1844 do Governo de Costa Cabral (Reinado de Dona Maria II), que passou a ser expressamente proibido os enterramentos de mortos nos locais de culto. Medida esta extremamente impopular e que esteve na génese da revolta popular designada como “Revolução da Maria da Fonte” ou “Revolução do Minho” na primavera de 1846 e que após se ter progressivamente alastrado a todo o Norte do país, teve como consequência indirecta uma Guerra Civil que durou 8 meses e que ficou conhecida como “A Patuleia”.

- “froucinhos”: frouxinhos, diminuitivo de frouxos.

- “ca lh’esmoqueteã a cara”: “Esmoquetear”, dar “moquetes”, esmurrar.

- “tamém s’enrista”: Também se encrista, ou seja fica zangada e tal como os galos levanta crista (figurativamente, claro!).

Assim termina este interessantíssimo texto que, malgrado as imperfeições e incoerências, é um documento precioso pois, para além de ser um repositório de expressões fonéticas antiquíssimas, trata-se, provavelmente, do primeiro texto em que se ensaia um modelo de transposição gráfica da “fala” Crasteja (veja-se as considerações e a contextualização deste documento expendidas no “post” Conversa Castreja I).

27/07/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro III - AMEIXOEIRA


AMEIXOEIRA [41°59'9.58"N; 8° 9'28.20"O; Alt: 780m]:

Ameixoeira é uma palavra sinónima de Ameixieira ou Ameixeira, ou seja, a árvore da família das rosáceas, cujo fruto é a ameixa.Ameijoeira, como é uso escrever-se no português-norma, se trata de um equipamento ou instrumento utilizado para pescar amêijoas.

Perante isto e não se vislumbrando outra explicação, julgo que o topónimo, terá a sua origem no facto de existirem Ameixoeiras no lugar em questão, já que amêijoas não é de todo possível (nem sequer fossilizadas como pelo vistos acontece ou aconteceu na freguesia da Ameixoeira no concelho de Lisboa. Também, por certo a origem do topónimo não pode estar em “Meixões”, ou seja os alevins das enguias também designados “Angulas”, porque embora este peixes entrem nas águas doces, é fisicamente impossível que alguma vez tenham chegado ao tramo do Rio Laboreiro situado na zona da Ameixoeira.

A ser acertada a tese de que o nome do lugar tem a sua origem na “árvore da família das rosáceas, cujo fruto é a ameixa”, a forma correcta de escrever o topónimo é Ameixoeira e não Ameijoeira, tratando-se esta última forma, como já disse, de uma adulteração (que aliás produz, como vimos, um resultado ridículo!) provocada pela norma linguística imposta, subrepticiamente, pelo Estado português no seu secular afã de uniformizar e desgaleguizar a “fala” das terras raianas, utilizando para isso mecanismo vários, como neste caso, através da substituição gráfica do “X” pelo “J”, ou noutros, substituindo o “B” pelo “V”.

A Ameixoeira, é uma Inverneira da margem esquerda do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para as Brandas de Curral do Gonçalo, Campelo e Eiras, todas, igualmente, da margem esquerda do Laboreiro.

Na Ameixoeira existe uma capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte, cuja festa é celebrada no dia 19 de Setembro de cada ano.

Para além disso, na Ameixoeira situa-se uma das três passagens viárias da fronteira existentes no Concelho de Melgaço (as outras são em São Gregório e na ponte Melgaço-Arbo). O Município Espanhol (Galego) vizinho da Ameixoeira, designa-se “Terrachán” com sede em “Entrimo”.


26/07/07

Conversa Castreja IV

Depois do Tio Francisco ter perorado sobre o progresso, a religião e o temperamento feroz do Senhor Reitor (ver Conversa Castreja III) a conversa irá agora derivar para as farturas e as misérias doutros tempos:

«(VZ): - Olhe, tio Francisco: é d’antes diç qu’habia muito dinheiro, é qu’a gente andaba sempre com fartura. É huje qu’hai?

(TF): - Nom que d’antes aqui nesta freiguesia só ch’habia as botas do Senhor Reitor, uas botas que lhe chegabã ó giolho, e só as lebaba p’rá igreija cando dezia a minsa, è demais nom ch’habia outras em toda a freiguesia; è um ano o Nelo dos Coutos, que já nom binha de Castilha hai quatro anos, trougo uas botas comàs do Senhor Reitor, è nom ch’as podo rumper, cà era o espelho dos outros todos; cando se saía da minsa, todos reganhabã o dente, d’ele se querer cumparar ó Senhor Reitor. É huje, huje nom hai cã nim gato que nom tenha uas botas è um chapéu è um relógio. E às mulheres fazia uns abarqueiros que lhe duraba dous anos, è huje já che trajêm çapatos è çoques com brochas marelas, è òs abarqueiros jòs nom querem, jós nom hai, è já hai panos de seda, è d’antes só habia capelas p’rá cabeça, è nom se bia um pano, nim de seda, nim dos outros nessa igreija. É aí che stá a razóm porque che nom hai dinheiro, porque o gastã nessas chincharias.»

Observações ao texto:

- «Nelo dos Coutos»: A menos que “DOS COUTOS” se trate da nomeada de uma família ou a de uma designação geográfica entretanto desaparecidas, deve tratar-se de um erro do autor a nível da transcrição gráfica da expressão fonética, na medida em que, em vez de “DOS COUTOS” provavelmente quereria dizer “DOS COTOS”, porque, esta sim, é uma designação que ainda hoje existe. Com efeito, ainda hoje se designa aquela zona do Lugar da Vila onde se situam a “Casa Castreja” e o Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, como sendo “OS COTOS”.

- «cà era o espelho dos outros todos»: Desconheço tal expressão, provavelmente é daquelas que caiu em desuso com o passar do tempo. Pelo contexto retira-se que quererá significar que todos lhe olhavam para as botas com inveja!

- «»: - Cão.

- «abarqueiros»: - Trata-se, sem dúvida de um tipo de calçado rude, talvez uns “çoques” menos sofisticados do que aqueles que o Tio Francisco refere, ou seja “(…) com brochas marelas (…)”.

- «jós»: Já os.

- «capelas p’rá cabeça»: Refere-se, sem dúvida, às tradicionais capas de pano negro (burel), ainda hoje utilizadas em Castro.

- «chincharias»: Quinquilharias.

A conversa continua e finaliza no próximo capítulo, onde se falará dos “homes” valentes doutros tempos.

25/07/07

"en canto o mundo siga a se-lo mundo"


Despedida ao Crasto Laboreiro

Eu, que nunca eu dixera, escado os cotos
do Crasto Laboreiro, moumo urces
e dígovos que nada me conmove.
Sinto que a espada está vencida e corva.
Morte que me morceas, non me asustas.
Os corgos seguirán onde adoitaban.
Outros homes virán onde eu vivira.
No Crasto Laboreiro ha haber codesos,
carqueixas e herbas más descontra Gorgua
en canto o mundo siga a se-lo mundo.
O meu dó será lene bris de Outono,
e este adeus ás matérias e enerxías
en ningures será nunca lembrado.

Xosé Luís Méndez Ferrín in Estirpe (1994)

24/07/07

‘La indecisión es la llave a la flexibilidad’


No dia 4 de Janeiro de 2007 um grupo de bravos “Kayakers” Irlandeses (Celtas portanto!), desceram o Laboreiro desde a Ameijoeira até ao Ribeiro de Baixo num dia de nevoeiro. Tiraram fotografias absolutamente assombrosas, entre as quais a mais fantástica (para mim!) é a que vai publicada a encimar este “Post”.

Outras fabulosas:



Aqui a coisa não saiu conforme estava planeada:



Perante estas fotografias uma coisa é certa: - Este desporto é espetacular mas “hai que os ter no sítio” para alguém se atrever a pratica-lo, sobretudo em pleno Inverno. Tiro aqui o meu chapéu a estes valentes "Paddy's"!

Vejam o site e mais fotografias aqui.

23/07/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro II - ALAGOA


ALAGOA [41°59'37.78"N; 8°10'17.13"O; Alt: 855m]:

Topónimo complexo formado pela aglutinação de 2 elementos (A-Lagoa). É um topónimo de origem hidrográfica e deve ter tido a sua origem numa construção hidráulica, provavelmente uma represa, ou como se diz em Castro: - Um “Pantáno”.

É um topónimo muito comum. Em Portugal Continental existem várias povoações assim designadas, inclusive existe uma freguesia com este mesmo nome no concelho de Portalegre. No Brasil existe uma Cidade chamada Alagoa no Estado de Minas Gerais.

Trata-se de uma Inverneira na margem direita do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para a Branda do Rodeiro e de Formarigo, na margem direita e esquerda do Rio Laboreiro, respectivamente.

20/07/07

Conversa Castreja III

Há dias atrás deixamos o Tio Francisco (TF) e o Vizinho (VZ) a conversar sobre as inclemências do clima e os seus efeitos nefastos na agricultura e pecuária, agora vamos assistir a um monólogo em que o velho Tio Francisco irá dissertar sobre o progresso, a religião e o temperamento feroz do Senhor Reitor. Ora, “entôm”, aqui vai…

«(TF): - Intom bamos-che passando estes dous dias que temos neste mundo, c’ò pior é-che no outro, c’àqui sabemos os cardos que comemos, é no outro nom ch’o sabemos.
Olha qu’um tio de meu abô, que ch’era crego, é era cura do Senhor Reitor, diç que dizia muitas bezes, sentado ali naquele canto, qu’era o sitio d’ele, qu’inda habia de bir o tempo qu’òs homes habiã de boar e òs ferros qu’habiã de falar; è olha, ele indo nom biu, mas nós já bemos. O camboio diç que passa aí pela beira do Rio Minho, arriba e abaixo, que corre que desaparece; é aí em Melgaço diç que se manda ua parte, indas que seja p’ra Lisboa, por um ferrinho è por um arame que bai d’aqui até lá.
Intom nom sei que che diga, nom sei p’r’ónde caminhamos, assi com tanta finuria. Estas cousas, já se sabe, tamém o Demonho há-de ter nelas a sua parte è quinhóm, cà cabeça dos homes só nom fazia todo.


É assi bai andando o mundo! O que ch’êu digo é que agora nom hai a religiom d’outro tempo. Ora, que soubesse o Senhor Reitor belho que alguém nom ia á minsa algum dia de domingo, chamabò lá, dezia-lh’as todas!
Parece que sabia todo, parece c’adebinhaba. É se lhe puxassem pela idêa, Deus nos libre! c’escastanhaba um lá dentro d’aquela casa, é batia àquelas botas, que lhe chegabã ó joelho, naquele sobrado, que parece c’alagaba aquela casa. E fosses tu lá com rètólicas, cá che puxaba as orelhas!
Mais, meu amigo, naquele tempo habia-che grã é patacos é herba é gando é res; é todo andaba gordo é bonito: é huje é miseria a mais miseria! Eu sempre oubi dezer que com Deus é co’o lume nom ch’hai chanças.»


Observações ao texto:

- CARDOS: Caldos (sopas).

- CREGO: Clérigo – Como sabem existe uma família em Castro com esta nomeada “os Cregos”.

- É curiosa a forma como o autor do texto, expressa o assombro do Tio Francisco pela novidade que é o telefone e que, pelos vistos, já existia em Melgaço (convém não esquecer que este texto foi escrito por volta de 1904 – veja-se o “post” Conversa Castreja I): «(…) diç que se manda ua parte, indas que seja p’ra Lisboa, por um ferrinho è por um arame que bai d’aqui até lá».«(…) ua parte (…)» significa um recado ou uma mensagem.

- «c’escastanhaba um lá dentro d’aquela casa» - Escastanhaba é uma expressão insólita que eu nunca ouvi. A origem deve estar na operação de tirar as castanhas de dentro dos ouriços abrindo-os ao meio. Assim o Senhor Reitor, escastanhaba aqueles que lhe «(…) puxassem pela idêa (…)», ou seja aqueles que o aborrecessem ou contradissessem.

- «(…) parece c’alagaba aquela casa (…)» Segundo LEITE DE VASCONCELLOS nas anotações que faz ao texto “alagaba” quer dizer esborralhava, ou seja fazia cair a casa, trata-se por isso, em termos estilísticos, de uma hipérbole.

- GRÃ: Grão. De centeio, como é óbvio!

Para finalizar, há no texto, duas expressões das quais eu gosto muito, porque são deliciosamente Castrejas! Parece que estou a ouvir a minha avó ou o meu avô a dize-las! São elas:

- «E fosses tu lá com rètólicas, cá che puxaba as orelhas!» e «(…) com Deus é co’o lume nom ch’hai chanças».

Esta agradável e instrutiva Conversa Castreja continuará nos próximos capítulos…

19/07/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro I - ADOFREIRE

TOPÓNIMO [do Gr. tópos, lugar + ónyma por ónoma, nome]: significa o nome próprio de um lugar.
TOPONÍMIA: significa o estudo linguístico ou histórico da origem dos Topónimos

Ao contrário de outras áreas do conhecimento como a História, a Etnologia, a Antropologia, a Sociologia e a Linguística, em que apesar de escassas sempre existem algumas fontes directas ou indirectas sobre Castro Laboreiro, a nível da Toponímia dos Lugares que compõe a freguesia, tanto quanto é do meu conhecimento, nada existe, excepção feita a duas ou três interpretações diferentes sobre o topónimo “Castro Laboreiro” que abordaremos em futuros “posts”.

Ora, eu não possuo conhecimentos nesta área científica, por isso proponho-me aqui, não a estudar em profundidade a Toponímia e fixar a origem e interpretação dos Topónimos dos Lugares de Castro (porque infelizmente não serei capaz!), mas antes a fazer um levantamento dos Topónimos e, na medida das minhas possibilidades, desbravar o caminho que conduza à sua interpretação, especulando e aventando hipóteses, pois na maioria dos casos é só isso que, legitimamente, se pode fazer.

Com toda a certeza, por desconhecimento ou até por esquecimento (pois isto de estar Longe de Castro Laboreiro também produz os seus efeitos na memória!) vou dizer e escrever muitas asneiras, por isso, mais do que nunca peço aos meus conterrâneos que visitam este Blog que participem, corrigindo-me ou completando as informações ou as hipóteses que irei publicando. Sobretudo peço que me ajudem nas informações que publicarei sobre as mudanças sazonais, ou seja, sempre que referenciar um topónimo de uma branda procurarei dizer o nome da (s) inverneira (s) para onde é feita a mudança da referida branda (e vice-versa) e é, precisamente, aqui onde vou dar as maiores argoladas, porque para além de sinceramente não ser conhecedor de todos os casos, ainda acresce o facto de as pessoas de uma determinada Branda mudarem para duas ou mais inverneiras (e vice-versa). Por isso, ajudem-me, pois eu terei o cuidado de corrigir o que for publicando e mencionarei que a correcção foi feita por informação de determinada pessoa (que se pode identificar ou manter o anonimato) e em determinada data.

Conforme sabem, a freguesia, que possui a área de cerca 90 Km2, é composta por 42 lugares “vivos” e três extintos (o Cobelo, o Porto dos Cavaleiros e o Baladoiro ou Abaladoiro), pelo que, como metodologia, irei referencia-los por ordem meramente alfabética.

Ora então, aqui vai o primeiro:

Adofreire [42° 3'20.39"N; 8° 8'29.32"O; Alt: 1072m] :

Topónimo complexo formado pela aglutinação de 3 elementos (A-do-Freire). Indica que, provavelmente, o lugar terá sido fundado, ou pertenceu a um Freire (Frade) como é claro no caso do lugar de ADOFREIRE na Freguesia de Pedrógão concelho de Torres Novas, distrito de Santarém, uma vez que neste caso sabe-se que a fundação de tal lugar se deveu a um freire da Ordem de São João de Jerusalém, dita de Malta.

Trata-se de uma Branda na margem direita do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para as Inverneiras do Barreiro, Ramisqueira, Dorna, Açoreira e Dejanalbe, situadas, igualmente, na margem direita do Laboreiro.

Neste lugar existiu uma Escola Primária que servia todas as Brandas do lado direito do Laboreiro e que fechou por falta de alunos em data que não posso precisar, mas penso que terá sido na década de 80 do século passado.

18/07/07

Receita do caldo verde galego-portugués

«Para bo cabo (verde) deste proceso alquímico de cociña arraiana precisaredes poñer en auga de véspera:

- Unha cunca ou cunquiña (dependendo da família ou da fame ou da própria ideoloxia) de pequenas fabas secas das brancas.

- Unha fatea de unto non moi grosa.

- Óso de xamón com algo de carne “pegada” (non sexades cotrosos), ou un anaco de lacón ou un chisco de toucinho.

E tamén vos cumprirá:

- Un óso de tenreira (imprescindible que sexa de Vaca Cachena Arraiana VCA, a única que sube polas penedas coma as cabras, côa sua cornamenta imponente e o seu cuíno de baixo perfil dourado).

- Patacas da Limia non tratadas com fast caralladas.

- Berza galega ou nabiza da terra.

- Alquimia pura e dura.

No dia de cociñar líbrase a auga do remollo e ponse unha auga nova case até encher o pote, que terá dentro as fabas, o unto e mailo óso de xamón, que ficarán agradando que comece a fervedoira. Cando rache a ferver a festa gastronómica, introdúcese delicadamente o óso de cachena na auga; co brazo esquerdo se sodes de esquerda e metendo o brazo dereito até o cóbado se decides ser apolíticos. Á media hora de estar a cocer quítase o unto côa escumadeira ou côa mau ó fondo do pote, segundo merezades. Os demais elementos deixaranse ferver unha hora e media mais a lume de racheliña húmida para non consumirmos a auguiña. Ai, Dios mio Jasús, como está collendo retranca que semella estar a rir…a

Engándenselle logo as patacas enteiras, que cocerán até que teñam abrandado un algo. Entón apártanse todos os ósos para unha berza mollada escintilante e cortada coa unlla dun xabarín. Côa batidora ou cun muíno de manivela ou cós dentes mesmo, móense as patacas até que fique un caldinho espeso very o’clock, no ponto, non de mais esaxerados. Tamén somos un pobo de badaiocos esaxerados e inútiles.

As berzas (estas pouquiñas) ou as nabizas (aqueloutradas) estarán xa lavadas, escollidas e picadas com rigor benedictino. Nesse amado país chamado Portugal, por trás dos montes pólos que nunca imos, véndense unhas maquiniñas para cortar que as deixan coma fios de espagueti verde. Bótanse ó pote e deixanse cocer uns quince minutos, de reloxio de area, co pote a teito descuberto e unha man no peto e outra no pote.

Probar ou deixar de probar (sem agredir) e corrixir de sal. Non vos dixen nada do sal até agora porque coidaba que tiñades UN MÍNIMO DE SENTIDIÑO COMÚN, ineptos.

O verdadeiro, o auténtico, o xenuino caldo verde do lonxano oeste ourensano (raia galego-portugalizada, moita raia de dios) deberá ir servido en cunca de barro e levar por riba un chisco de óleo de oliva. Se se tem viño verde na casa pode un marchar a pé até o Castro Laboreiro sem deixar de voar á mesma altura da fartura do verde que Miguel Torga.»

In Revista Arraianos, I Tirada; Celanova, Agosto de 2004, a pág. 43.

16/07/07

Vale a pena subir à Pena


Embora não seja o ponto de maior altitude, a Pena d’Anaman (cerca de 100m de altura) é sem dúvida o monólito mais imponente e espectacular do território de Castro Laboreiro e é também aquele que mais se proporciona ao exercício da “Escalada”.

Tanto quanto me foi possível descobrir, a Pena já foi escalada por algumas vezes, contudo julgo que os primeiros montanhistas a realizarem tal proeza foram Vítor Viana e João Dinis em 1998.


Vitor Viana


João Dinis

Eis aqui a prova:



Eu também já lá subi mas não foi propriamente a escalar o coto! As vistas são espectaculares, como podem facilmente imaginar: Vêem-se perfeitamente quase todos os pontos do território, desde o planalto a Norte e Este, ao Vale dos Ribeiros a sudoeste, e percebe-se claramente que o território é formado por degraus a que correspondem as diversas cotas de altitude.

Vale a pena subir à Pena, mas é melhor ir por trás, partindo do Alto da Seara. Eu, quando lá fui, subi desde a Capela da Nossa Senhora d’Anaman, contornado o penhasco pelo lado direito, mas nessa altura devia ter cerca de 17 ou 18 anos e, mesmo assim, deixei os "bofes" pelo caminho!


13/07/07

A menina esbofeteada do frio



Já num anterior “post” chamado “O Colmo” tive a ocasião de publicar um texto de Miguel Torga sobre Castro Laboreiro. Tratou-se do trecho do final do Capítulo “Minho” do seu livro “Portugal”, obra publicada pela primeira vez em 1950. Aí, o grande Poeta e Prosador português, aborrecido com a verdura e o garrido das terras baixas do Minho («o vinho é verde, o caldo é verde»), inicia a sua viagem em Melgaço e chega a Castro Laboreiro à procura do «meu Minho» (Torga nasceu em São Martinho da Anta, Vila Real, sendo, por isso, um Transmontano, daí a sua identificação com as terras agrestes, planálticas e montanhosas de Castro Laboreiro!).

Bem, o texto que se inicia no “post” intitulado “O Colmo” continua assim:

«(…) Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava nas pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.

Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa do Inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família – pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos – descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.

- Conhece esta cantiga?
- Ãhn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Notícias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.

-É legítimo este cão?
-É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda…

- A Peneda?

A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Soajo e o Lindoso. Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria de um postigo acolhedor e fraterno.

Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Ave atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes (…)»

12/07/07

Paris, as trutas e as saudades do “Tio Zé Cobelo”

«Agora aqui em Paris
cidade que o mundo inveja
sinto saudades da minha terra
e do sino da nossa igreja
Saudades em que se abrasa
a minha alma castreja.»

(Poema da autoria de José Joaquim Esteves, mais conhecido por “Tio Zé Cobelo”)

Estou seguro de que muitos dos que visitam este blog conheceram o Tio Zé Cobelo, já falecido (tragicamente!) há umas boas dezenas de anos. Esses sabem que para além de se tratar de um homem bom e honrado, foi um pescador e caçador sem igual, uma verdadeira lenda da pesca à truta e da caça ao coelho e sobretudo, à perdiz. Foi Mestre e inspirador de várias gerações de pescadores e de caçadores castrejos e até de outras zonas do país que se deslocavam a Castro para ter o prazer de praticar aquelas actividades na companhia sempre didáctica do Tio Zé. O grande realizador português Jorge Brum do Canto que nos finais dos anos 60 do século passado rodou em Castro Laboreiro o filme chamado “A Cruz de Ferro”, e que tinha a fama de ser um pescador de trutas e de achigãs ímpar (foi mesmo um dos introdutores desta última espécie em Portugal), chegou a dizer, sobre o Tio Zé numa entrevista que “em Castro Laboreiro encontrei, por fim, um Mestre”.

Eu, que também tinha a mania que era pescador de trutas, encontrei-o várias vezes no Rio, ali para os lados do “Salto do Gato” ou, mais abaixo, na “Assureira” ou em “Mareco”. Era eu rapazote dos meus 14 ou 15 anos e lembro-me que mal o via ia-me aproximando, rapidamente, se calhava de ir atrás dele, ou atrasando-me, se ia à frente, para ver se ele me apanhava e chegávamos à fala. Mas estes expedientes não eram necessários, pois o Tio Zé, com aquela bondade e generosidade que sempre o caracterizaram, mal me via chamava-me e logo dizia: “Quê rapaz? Que tal te corre o dia?” e este era o início de uma saborosa conversa/aula (mais ainda se o neto dele, o Zé Eduardo, mais ou menos da minha idade, o acompanhava como acontecia frequentemente!) sobre as trutas, e a influência do tempo no comportamento das mesmas, qual a técnica que se deveria utilizar naquele dia ou naquela época do ano. Como é óbvio o Tio Zé era um especialista inultrapassável nas várias técnicas de pesca à truta no Rio Laboreiro: - à minhoca, à bóia, à amostra ou “Lancê”, e à “mosca” ou “pluma”, aquilo que hoje se chama Fly-fishing, e que é, sem dúvida, a mais distinta e espetacular das técnicas e, por isso mesmo, aquela que o Tio Zé preferia. Já eu, era só pesca à Minhoca (e sabe Deus!) que praticava com uma cana que era um verdadeiro “estadulho”. Depois, o Tio Zé, face às minhas insistentes perguntas sobre a pesca “à pluma”, que me fascinava, como ainda hoje me fascina, se calhava de levar a cana dele, logo me punha “ensaiar” dando-me os conselhos necessários com aquela calma, bonomia e proficiência que caracteriza os homens nobres, generosos e sábios. Tenho muitas saudades do “Tio Zé” e daquelas tardes de pesca no maravilhoso Rio Laboreiro!

Ora, o Tio Zé como tantos outros Castrejos também foi emigrante, em Espanha e em França, tal como me disse o “Tio Adelino Cobelo”, filho do Tio Zé e Presidente da Junta de Castro Laboreiro, numa conversa que tivemos em casa dele há já bastantes anos e, no decurso da qual, me mostrou e me deixou copiar um pequeno manuscrito do “Tio Zé” onde constava o poema que coloquei no início deste “post”.

É um pequeno poema na forma mas grande no conteúdo, pois expressa comoventemente o sentimento do castrejo migrante de ontem, de hoje e de sempre.

Bem haja o bom do “Tio Zé Cobelo” e que esteja feliz lá onde estiver, se possível a ensinar os Anjos e os Santos a pescar trutas e a caçar perdizes, como só ele sabia fazer.

10/07/07

Conversa Castreja II

Depois de terem falado sobre a neve e sobre o Lobo, o Tio Francisco e o Vizinho continuam a conversar…

«(TF) – È que tal? Hai herba nos campos estiano?
(VZ) – A cousa regula pelos outros anos: nim hai muita, nim hai pouca, hai um remédio p’ra gobernar, é ir tendo mã dos ossos ás baquinhas, cá as minhas pequeninhas estiano sóm bem castigadas do frio.
(TF) – Sóm, sóm! Olha qu’este ano bai frio, qui-eu já conto dous carros è nom me lembro de tanta frialdade: só é por eu ser bélho, è senti-lo mais!
(VZ) – Olhe q’o ano bai sequeiro. A minha Maria tamém se queixa, q’às berças estiano já secárum todas co’a giada, é que nom hai com que faze’lo cardo: è a gente sem cardo parece que nom quéce por dentro.
(TF) – Ai intóm nom sô eu só que conheço isso, é porque é berdade, qu’o ano bai coelheiro; mais olha nom ch’hai mal que nom traga bem. O frio no seu tempo tamém ch’é bô, cá já meu abô dezia qu’[em Janeiro sube ó outeiro: è chora, se bires berdegar, è canta se bires terrear]. Olha c’ó ditado dos bélhos sai-che certo, por qu’olhà giada matos bichos qu’andã nos campos, p’ra que despois nom coma os fruitos e à nobidade toda.»


Como vêem o assunto da conversa deriva agora para o clima e a sua influência na pecuária e na agricultura e continuam a surgir expressões e formas fonéticas invulgares, como por exemplo:

- «ir tendo mã dos ossos das baquinhas» é uma expressão que significa, tudo leva a crer: “ter mão nos ossos das vaquinhas”, ou seja cuidar bem das vacas para que não sofram com a falta de alimentação (erva, feno).

- «qui-eu já conto dous carros», segundo LEITE DE VASCONCELLOS, nas anotações que faz ao texto, esta expressão significa que o Tio Francisco já tem 80 anos, porque um carro se conta por 40 alqueires.

- «qu’o ano bai coelheiro», julgo que quererá dizer que como o ano tem sido seco a tendência é para haver muitos coelhos bravos porque se tivesse chovido muito as ninhadas teriam morrido nas tocas inundadas. Ou então quererá dizer que como têm nascido muitos coelhos mansos haverá dificuldade em alimenta-los dada a falta das berças (couves) que a geada secou!

- «em Janeiro sube ó outeiro: è chora, se bires berdegar, è canta se bires terrear» - é um provérbio que segundo LEITE DE VASCONCELLOS era comum em Portugal nessa época.

A conversa continuará em futuros “posts”…

09/07/07

Conversa Castreja I

Personagens: Tio Francisco (TF) e um Vizinho não identificado (VZ)

(VZ)- Deus lhe dia boas noites tio Francisco! Intóm est’á ó lume, ei! É ele huje sabe, cá faz um frio que parece Janeiro, com’é.
(TF) - Isto um bélho tem de star sempre’ó lume, cá lá ó frio nom pode star! Intóm stou p’ràqui ó borralho p’ra tê’los pés quentes.
(VZ) - Cecais qu’estaria milhôr na cama porqu’ò calor da cama é milhôr.
(TF) – Mais na cama nom se póde estar sempre, c’àté dói o corpo è os ossos: è em canto a gente póde lebantar estas pernas, bai-s’erguendo.
(VZ) – Pois eu huje fui guiá’la auga á Porteleira, é bi-me mal co’a nebe: todo era escorregar, escorregar, que dei cada caída, c’até me parcia que nom me lebantaba, nim binha pr’ó eido!! É apareceu-m’o condanido do lobo no caminho, que p’ra me librar d’ele, bi-m’entr’à cruz e o caldeirinho, è pensei que era huje a minha última.
(TF) - Sume-t’artelo! Eu t’arrenego! Àbrenúncio! Que demonho de bicho! Cá faç tanto mal perí! Só com obelhas tem comido tantas, tantas, c’àté nom sei como lhe nom cái o rabo co’as unturas que dá ás tripas!
(VZ)- Veigam-che cantos hai no outro mundo! C’ó demonho do lobo até me fezo pôr rouco a berrar eu ú, ú, ú; mais ninguém m’oubia. Olhe cá pensei que lhe daba üa cêa àquele condanido. Eu bém chamaba é berregaba, mais ninguém me falaba! O escomungado parece qu’adebinhaba que estabámos ali só os dous, p’ra juntá´los coletes.

(TF) – Pois graças a Deus qu’escapache d’esta enfeita. (…)

Este é a primeira parte de um diálogo, imaginário, entre dois Castrejos e foi escrito em 1903 pelo Abade de Melgaço da altura, o Padre Manoel José Domingues, natural de Castro Laboreiro tendo sido publicado por JOSÉ LEITE DE VASCONCELLOS in Opúsculos, Vol. II – Dialectologia (parte I), págs. 365 a 369 – Coimbra, Imprensa da Universidade 1928.

É um documento muito curioso, pois julgo tratar-se da primeira tentativa de escrever o designado “Dialecto de Castro Laboreiro”, e tem a mais valia de o autor ser um natural da nossa Terra.

Há contudo uma incoerência na situação descrita na conversa. Incoerência que se traduz no facto de o Vizinho dizer ao Tio Francisco que foi guiar a “auga” quando afinal havia uma nevada tão grande que o próprio diz que se fartou de escorregar: “(…) dei cada caída, c’até me parcia que nom me lebantaba, nim binha pr’ó eido.” . Ora, tanto quanto sei não se guia a “auga” no Inverno. Esse é um trabalho que se pratica no fim da primavera e no início do verão quando o clima é seco e a falta de pluviosidade obriga a que o regadio se faça utilizando a água previamente reservada nas poças das minas.

Bom, a parte esta pequena incoerência, o texto é absolutamente delicioso, embora algumas palavras e expressões sejam um tanto ou quanto estranhas para quem está familiarizado com a “fala” de Castro (pelo menos para mim!), contudo tais palavras, expressões ou formas fonéticas, podem muito bem ter estado em uso à data da criação do diálogo (finais do Sec. XIX e princípios do Sec. XX) e entretanto terem caído em desuso.

Veja-se por exemplo.
INTÓM: a meu ver a grafia mais correcta para corresponder com o fonema da palavra seria ENTÔM.
CECAIS: Nunca ouvi dizer este termo. Aquele que conheço é SECALHA, ou melhor SE CALHA.
CONDANIDO: Também não conheço, talvez devesse ser CONDENADO ou CANDANADO (cão+danado).
SUME-T’ARTELO: Também nunca ouvi, mas soa mesmo a “castrejo”.

De qualquer forma vê-se que o texto foi escrito por alguém que realmente conhecia o falar da gente de Castro Laboreiro, pois quase todas as palavras e expressões são familiares a quem conheça por dentro a forma como as pessoas de “Castro Laboreiro” se expressam na sua autenticidade, ou seja sem as adulterações que o “português” norma tem aportado ao velho dialecto das gentes de Castro.

Nos próximos posts veremos a continuação deste diálogo.

06/07/07

Às Mães de Castro Laboreiro

«AS MÃES

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasce o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivesse morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E o que elas duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes, encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pelas almas de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem pelas termas, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.»
Eugénio de Andrade in "Vertentes do olhar" (1987)

05/07/07

Caras de tapuias tostadas

Castro Laboreiro, 26 de Setembro de 1791:

«Escrevi (…) da Vila dos Arcos, agora faço-o de Castro Laboreiro (…).
Que serras fragosíssimas; que caminhos, que desfiladeiros! O Lugar onde estou actualmente é a Noruega de Portugal: não se vêem senão rochas escarpadas e medonhas; árvores de frutos nem uma só; e até as outras são muito raras: não há milho, nem trigo nem hortaliça de casta alguma; apenas o grão do centeio.

Que lhe hei-de dizer da gente? Estão na sua primitiva simplicidade, sem que o luxo tenha feito aqui a mais leve alteração: homens, e mulheres com o seu respectivo uniforme, do qual nenhum se afasta.
Não há coisa mais feia que o (uniforme) do sexo feminino: uma manta de Saragoça dobrada na cabeça descendo da parte de diante até ao peito, muito cosida com o rosto, sendo que por traz chega quase até ao chão; um avental do mesmo tecido (…), polainas de pano branco, e uns tamancos muito altos, atados com diferentes correias; é assim o vestido geral de todas.
As caras são de tapuias tostadas e disformes, contudo sabem os Mistérios da nossa Santa Religião; amam as coisas de Deus, e não me consta que haja no lugar escândalos grosseiros.
Ficaram contentíssimos de me ver na sua terra, aonde não ia nenhum prelado há cerca de um século; e desde que cheguei, sempre a igreja tem estado cheia de povo.
Queria dizer-lhe mais, pois há muito para contar; mas falta o tempo.»
[Transcrição em português actual da Carta de Dom Frei Caetano Brandão in AMARAL, António Caetano de. Memórias para a história da vida do venerável D. Frei Caetano Brandão. 2 vols. Lisboa, Na Impressão Régia, 1818. 2ª ed. Braga, Typografia dos Orphãos 1867, extracto publicado por Alice Duarte Geraldes in Brandas e Inverneiras – particularidades do sistema agro-pastoril crastejo, Cadernos Juríz Xurês n.º 2, 1996, págs. 13 e 14.]
Esta carta, escrita por Dom Frei Caetano Brandão, Arcebispo de Braga de 1790 a 1805, a quem Camilo Castelo Branco designou como «O mais glorioso vulto das cristandades lusitanas.» expressa o espanto e o assombramento com que o mencionado Arcebispo encarou Castro Laboreiro aquando da sua viagem em 1791 (portanto no Reinado de Dona Maria I -24/02/1777 a 20/03/1816).
É desde logo curiosa a comparação que faz quando diz que «o Lugar onde estou actualmente é a Noruega de Portugal». Também é interessante a descrição que faz sobre a indumentária (uniforme) das mulheres referindo-se à tradicional capa como sendo «(…) uma manta de Saragoça (…)», aos “calçons” como «(…) polainas de pano branco(…)» e aos “soques” como «(…) uns tamancos muito altos (…)atados com diferentes correias».
Depois passa para uma descrição da cara dos Castrejos utilizando uma comparação nada abonatória para os nossos longínquos antepassados. Diz ele que parecem «(…) tapuias tostadas e disformes (…)». Ora os tapuias eram, e ainda são, um grupo indígena que habita o noroeste do estado brasileiro de Goiás , que o Dom Frei Caetano conhecia por ter sido entre 1782 e 1790 Bispo de Belém do Pará. Claro que para um indivíduo habituado às peles lustrosas que frequentavam (como ainda frequentam) as cortes e os Paços episcopais, aquela pobre e sofrida gente que mourejava dia a dia sob as inclemências do clima da montanha com as consequências que daí advém para a pele do rosto, pareciam «tapuias disformes».
Apesar desta comparação nada feliz para os nativos de Castro Laboreiro, tem que ser dado o mérito ao Dom Frei Caetano de lá ter ido, pois isso revela-nos uma preocupação, pelo menos, com o bem estar espiritual daquelas pessoas, tanto que diz ele àquela terra «(…) não ia nenhum prelado há cerca de um século (…), embora não «(…) haja no lugar escândalos grosseiros» (presumo que o nosso Arcebispo se quis referir a incestos, concubinatos e escândalos do género).


Imagens do Arcebispo Dom Frei Caetano Brandão


Como podem ver o Dom Caetano também não vestia lá muito bem de cara!

Parece um Kiwi!

Esta é a estátua de Dom Frei Caetano Brandão existente em Belém do Pará.

Aqui está mais favorecido!