12/10/07

Quando tomavit dominus rex Castellum de Laborario

Afonso Henriques

Estávamos em finais da década de 30, inícios da de 40, do século XII e os vales do Minho e do Lima estavam a ferro e fogo. Afonso Henriques, galvanizado pela vitória conseguida sobre os Sarracenos na batalha de Ourique (25 de Julho de 1137), vira a sua atenção para a fronteira norte do Condado/Reino e invade as terras de Toronho (terras da margem direita do rio Minho cujo o centro de referência era a cidade de Tuy), violando, assim, de modo flagrante, o Pacto celebrado em 4 de Junho de 1137, nesta mesma cidade, no qual tinha ficado estabelecido que tais terras eram propriedade do, auto-proclamado Imperador de toda a Espanha, Afonso VII de Leão.


Afonso VII de Leão

Saliente-se que, antes deste Pacto, tais terras, pertencentes à Condessa Teresa de Leão, passaram a pertencer, por sucessão, ao seu filho Afonso Henriques que, por isso e ainda pela adesão voluntária de parte da nobreza galega e também pela força das armas, se tinha tornado o senhor absoluto de todo o sul da Galiza, nomeadamente das províncias de Toronho e Límia (região do vale do Lima, sensivelmente situada, entre Ponte de Lima e Ourense), suserano dos condes galegos Gomes Nunes e Rodrigo Peres; vencedor da batalha de Cerneja e senhor da cidade de Tui.

Furioso com o primo irrequieto, o Imperador ordena a invasão do Minho e consequentemente, o Castelo de Laboreiro (de capital importância estratégica por se situar entre os vales dos dois rios, dominando os, então, chamados Montes de Laboreiro) é tomado pelos Leoneses capitaneadas provavelmente pelo Conde Galego Fernando Anes (Enes), Alcaide de Allariz.


Afonso Henriques, com aquela inquebrantável energia e visão estratégica que o haveriam de tornar num dos mais temidos senhores da guerra Europeus do Séc XII, não se fica! E, provavelmente, em 1140, cercou e retomou o Castelo de Laboreiro devolvendo-o ao domínio do, então e apenas auto-proclamado, Reino de Portugal.




Na altura o Castelo deveria ser uma velha fortaleza roqueira assente sobre as ruínas de uma povoação fundada, algures, na idade do ferro. Fortaleza esta que terá sido, eventualmente, restaurada entre o Sec. IX e o Séc. X, quando esteve sob o domínio da família Mendo, Mendes ou Menendez, a quem as terras dos Montes Laboreiro, juntamente com a região de Bubal e maior parte da região da Límia, foram doadas por Afonso III, o Magno, Rei das Astúrias, de Leão e da Galiza (866-910) e entre outras coisas, conquistador das cidades do Porto e de Coimbra.

Com efeito tais terras foram doadas ao Conde do Porto e Tuy, Hermenegildo Mendo, como prémio pela vitória alcançada contra o Conde Galego Witiza, ou Guicia, que revoltando-se contra Afonso III, delas se tinha apoderado. Convém ter presente que a lenda atribui ao neto do Conde Hermenegildo Mendo, o famoso São Rosendo (personagem incontornável da Gallecia do Sec. X), a fundação ou a refundação do Castelo de Laboreiro, isto muito embora não existam fontes documentais conhecidas que atestem, inequivocamente, esta possibilidade.

Para levar a bom porto o cerco do Castelo de Laboreiro, Afonso Henriques, careceu do apoio da nobreza e do clero da região. E tal apoio foi-lhe dado! Designadamente, a abadessa do mosteiro de São Salvador de Paderne, Elvira Serrazins ou Serracine, contribuiu com dez éguas e respectivas crias; 30 moios de vinho (para animar a soldadesca sedenta, digo eu!); um magnífico cavalo avaliado em 500 soldos e ainda cem áureos.

Agradecido, Afonso Henriques, em 16 de Abril de 1141, concede uma carta de couto ao mosteiro de São Salvador de Paderne. Esta carta, que conta já com a bonita idade de 866 anos, e é a mais antiga referência documental conhecida sobre Castro Laboreiro, ou pelo menos sobre o seu castelo, reza assim, na parte que nos importa:

«(…) isttum fretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex Castellum de Laborario».

Ou seja:

«Este valor e este serviço foram prestados quando o Senhor Rei tomou o Castelo de Laboreiro».

E assim, como diz o ilustre e criterioso historiador Castrejo, Padre Manuel António Bernardo Pintor (Ribeiro de Cima, 1911 – Monção, 1996): «Este castelo em ruínas tem a subida honra de ter experimentado a bravura indómita do primeiro rei de Portugal que nos deixou o primeiro testemunho histórico da sua existência.»

Bibliografia:

ALMEIDA, Carlos A. Brochado de – “A Couraça nova da Vila de Melgaço; Resultado de uma intervenção arqueológica na Praça da República”; Portvgália, nova série, 2003

AMARAL, Diogo Freitas do – “D. Afonso Henriques – Biografia”. Bertrand Editora; 3.ª Edição-2000.

DOMINGUES, José – “O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro, “adito” para o debate”; Núcleo de Estudos e pesquisa dos Montes Laboreiro, 2003.

DOMINGUES, José – “O Direito de padroado da igreja de Castro Laboreiro na Idade Média”, Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço, 2002.

PINTOR; Manuel António Bernardo – “Castro Laboreiro e os seus Forais”, separata de Bracara Augusta, vol. XVIII-XIX, n,º 41-42, Braga, 1965.

PINTOR; Manuel António Bernardo –“ O Recontro de Val-de-Vez. Onde foi?, Braga, 1977.

RODRIGUES, Teresa de Jesus –“D. Afonso Henriques e o Alto Minho”, Revista de Guimarães, n.º 106, 1996.

TEJEDO, Manuel Carriedo – “XI Centenário de San Rosendo (907-2007); Patrono de Mondoñedo-Ferrol e Símbolo de Galicia”; Nuevas, 2007.

6 comentários:

Eira-Velha disse...

Excelente trabalho, sem desprimor para os anteriores.
Vamos continujar a descobrir Castro Laboreiro.
Um abraço e... força na berga!

Bocanegra disse...

Caro Eira-Velha,

É bom tê-lo por cá outra vez!

A ideia é de facto, e tão só, essa: -Descobrir, redescobrir e divulgar Castro Laboreiro!

Obrigado pelas boas palavras.

castrejinha disse...

Excelente trabalho... gostei muito :-)
Bj**

fotógrafa disse...

Blog muito interessante, já o descobri e já o linkei, no meu!
Um abraço

Bocanegra disse...

Castrejinha e Fotófrafa,

Obrigado pelas vossas palavras.

Voltem sempre.

Luis disse...

O mito de Alfonso Anriques
http://gallaeciaeuropa.blogspot.com/2007/04/o-mito-de-alfonso-anriques.html

Portugal, nações amalgamadas num país
http://gallaeciaeuropa.blogspot.com/2007/04/o-mito-de-alfonso-anriques_30.html

Portugal não é uma nação, são varias nações, tal como Espanha.
O correcto era as nações serem independentes.
Gallaecia até ao Mondego deveria ser uma naçom independente