18/09/07

Fronteiras

É facto consabido que as fronteiras político-administrativas dificilmente coincidem com as fronteiras culturais e linguísticas.A Galiza nesse aspecto é um "case study", tanto no que concerne às suas fronteiras orientais, com as Astúrias e com León (a designada Galiza Irredenta), como no que concerne à sua fronteira meridional, com Portugal (Alto Minho e Trás os-Montes). Aliás, neste último caso, o mesmo se pode dizer se analisarmos a questão do lado português!

O documentário que se segue, realizado por Rúben Pardiñas e divulgado na Televisión de Galicia no dia 25 de Julho de 2007, demonstra precisamente isso e ainda algo de mais importante: - Que as segmentações politíco-territoriais, só por si, são incapazes anular a comunhão cultural e linguística vigente entre os Povos de matriz galaico-portuguesa.

O documentário tem a duração de 57:21m, para os que não tiverem paciência aconselho, pelo menos, que vejam do minuto 43:27m em diante, garanto-vos que não se arrependerão!

14/09/07

O tratorzinho

Era sexta-feira à tarde e, à sombra da velha muralha, a feira de Melgaço fervilhava de actividade. Eu lá andava, de tenda em tenda, a esvoaçar por entre as pernas dos fregueses. Passei sem olhar pela tenda dos sapatos, e mesmo antes de chegar à tenda dos “pitinhos” e dos coelhos, encontrei aquilo que procurava: - A tenda dos brinquedos!

Os meus olhos, deslumbrados, esbugalharam-se! Estavam lá todos aqueles que interessavam. Os camiões, os carrinhos, as espingardinhas de bareta e, sobretudo, aquele que me trazia cobiçoso desde que o tinha visto nas mãos enlameadas do meu vizinho, com que brincava às tardes, depois da escola: - Um tratorzinho com carroça e tudo.

Fitei-o sem saber se lhe havia ou não de tocar! Olhei para o dono da tenda e este lançou-me um despreocupado e convidativo olhar azul. Não resisti! Sentei-me no chão, peguei-o e comecei a roda-lo por uma vereda imaginária, tendo o máximo cuidado para fazer bem as curvas, de modo a que a carroça, carregada de lenha, não se virasse.

- “Larga isso filho”. Troou a voz da minha mãe, rasgando a nuvem translúcida da minha fantasia.

- “Mas Mãe é igualzinho àquele que eu queria”. Disseram os meus olhos subitamente húmidos.

- “Non pode ser! É mui caro!” Disse implacavelmente a minha mãe em tom de fim de conversa.

-“Dá-lho mulher, dá-lho! Ca mais bale um gosto na bida do ca cem bombos na hora da morte”. Disse a voz meiga e cansada da minha avó.

O tratorzinho já há muito tempo que não existe, perdi-o nalguma recôndita vereda da vida, mas há-de sempre existir o sorriso doce e maternal da minha falecida avó, enquanto os meus beijos felizes lhe orvalhavam o rosto agreste.

11/09/07

No dia que t’eu nõ bêjo, meus olhos são duas fontes

JOSÉ LEITE DE VASCONCELOS (Ucanha, 07/07/1858 - Lisboa, 17/05/1941), de quem já tive a oportunidade de vos falar no “post” intitulado Conversa Castreja I, é considerado o “pai” da Antropologia portuguesa moderna. Ora, este eminente cientista social português, publicou em 1916 no volume XIX, a págs. 270 a 280, da Revista Lusitana (da qual foi fundador) um texto designado “Excursão a Castro-Laboreiro”, cujo primeiro parágrafo passo a citar:

«Em 1904, estando a veranear nas Agoas do Peso, fiz uma excursão a Castro-Laboreiro em companhia do Rev.º Manoel José Domingues, Abbade de Melgaço. A excursão foi muito breve. Partimos num dia de manhã e voltamos no dia seguinte depois do almoço. Tomei porém algumas notas ethnographicas e dialectologicas que poderão ter utilidade para os estudiosos; e por isso aqui as publico, pouco mais ou menos na mesma fórma em que as tomei».

Seguem-se a descrição da “Excursão”, bem como as notas, apontamentos e reflexões do cientista, às quais, provavelmente, voltarei em “posts” futuros, uma vez que o que agora me interessa é publicar umas curiosas amostras de poesia popular coligidas em Castro pelo Mestre Leite de Vasconcelos e que se encontram a págs 277 e 278.

Ora aqui vai:

Adeus, ó bila de Crasto,
As costas lh’eu bou birando,
Im que lh’eu as costas bire,
Meu coraçom bai chorando.

Adeus, ó bila d’Acastro,
Probência de Tras-os-montes,
No dia que t’eu nõ bêjo,
Meus olhos são duas fontes (1)

Adeus, ó terra de Crasto
As costas te bou birar,
Bou para o bal de Chabes (2)
Donde m’eu bou desterrar.

Fita berde no chapéu
Meu amor, nõ lh’a ponhais,
Dá-lh’o bento abole, abole…
E eu côido que m’açanais!

Heid’ amar o cordom berde,
Im quanto tiber berdura,
Hei-d’amar a quem quijer
Q’inda nõ fije scritura.

Neste lenço deposito
Lágrimas que por ti choro
Por nõ poder alcançar
Os braços de quem adoro

Esses teus lindos olhos
Som cadeias de bom ferro,
Prisões que me a mim sigurã…
Eu outras já as nõ quero.

Alfaite, guarda a filha,
Nõ na ponhas na jenela,
Os soldados da marinha
Nõ tirã os olhos dela.

Alfaites nõ som homes,
Nem se lhes póde chamar,
Quando pérdim uma agulha,
Logo se põ a chorar!

(1) Variante insciente de uma cantiga aplicada a Vila-Real de Trás-os-Montes.
(2) Vale de Chaves»

E pronto! Tirando os Alfaites(!) penso que toda a gente gostará de conhecer esta cantiguinhas que se cantavam na nossa Terra nos finais do Século XIX, princípios do Século XX

06/09/07

Rio Minho na Jamaica?

Esta não é sobre Castro Laboreiro, mas é tão curiosa que não resisto a contar-vos:

Sabem que existe um rio na Jamaica chamado Rio Minho? Pois é verdade! E para além do mais tem 92,5 Km de extensão (bastante menos que o nosso Rio Minho que tem 342 Km) o que faz dele o maior curso de água doce daquela ilha caribenha!




A azul: Curso aproximado do Rio Minho na Jamaica


E por obra de quem um rio na Jamaica se chama Rio Minho? Perguntam vocês com toda a razão!

É fácil de responder: - Por obra dos Espanhóis, isto porque a Jamaica foi uma colónia espanhola desde a sua descoberta por Cristóvão Colombo em 1494, até ser conquistada pelos Ingleses em 1655. Mas o que é sobremaneira curioso é o facto da grafia correctada palavra ser “Minho”, portanto na versão portuguesa, e não “Miño” como seria na versão castelhana da palavra! Há com toda a certeza uma explicação para isso, contudo não tive habilidade suficiente para a descobrir! Outra curiosidade é que a designação oficial do Rio é mesmo “Rio Minho” e não “River Minho” ou sequer “Rio Minho River”, o que é estranho se atentarmos ao facto de a Jamaica ser um país anglófono.

Já agora ficam também saber que a bela Jamaica, para além de ser a pátria dos inesquecíveis Bob Marley e Peter Tosh, do Reaggae e da religião e cultura Rastafari é a terceira maior ilha do Arquipélago das Caraíbas e é uma nação independente desde o dia 6 de Agosto de 1962. O seu actual sistema de governo é a Democracia Parlamentar e é, como quase todas as ex-colónias inglesas, um membro da Commonwealth of Nations. Para além disso importa saber que sua capital actual é a cidade de Kingston, que sucedeu a Port Royale e Spanish Town, as duas antigas capitais coloniais da Jamaica.


Espero que tenham gostado desta pequena excursão ao Rio Minho e à esplendorosa ilha da Jamaica, eu, agora, fico “prá aqui” a trautear a mais luminosa e optimista canção do grande e saudoso Marley (com quem JAH deve, seguramente, fumar uns valentíssimos charros, enquanto ensaia uns passinhos de Reaggae):

Baby don’t, worry,
about a thing,
‘cause every little thing,
is gonna be all right…

04/09/07

O Tomás das Quingostas

O Boaventura Eira-Velha, ilustre Cavenquense e autor do magnífico Blog Memórias…, num comentário ao “post” Conversa Castreja V diz-nos que embora não haja documentação que claramente o comprove é mais do que provável que tenha existido o Tomás das Quingostas, que terá sido uma figura equiparável ao famoso Zé do Telhado, ou seja uma espécie de Robin dos Bosques à portuguesa. Bom, a coisa deixou-me curioso e decidi fazer uma pequena investigação para tentar descobrir mais alguma coisa sobre este mítico bandoleiro raiano.

Ora, o que de mais significativo fiquei a saber foi da publicação recente (Edição de Autor) de um romance histórico com base nesta personagem, intitulado “ O Tomás das Quingostas” da autoria de José Alfredo Cerdeira.

Fiquei ainda a saber que no passado dia 11 de Agosto, no âmbito do 6.º Congresso de História Local, organizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro, foi efectuada uma apresentação deste romance por parte do seu autor e que, para além disso, também no âmbito deste Congresso, Joaquim Rocha dissertou sobre a “Vida de Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente não estive presente nesta manifestação cultural, porque não tenho qualquer dúvida tanto do interesse do romance como da mencionada dissertação.

Resta contudo a possibilidade de adquirir o Livro e de assistir à uma outra apresentação do romance que será levada a cabo pelo seu autor no próximo dia 28 de Setembro na Livraria Centésima Página sita no n.º 118/120 da Avenida Central em Braga. Infelizmente não terei a oportunidade de ir a esta apresentação, mas logo que possa adquirirei o romance em causa, embora não preveja grandes facilidades, uma vez que sendo, como é, uma Edição de Autor, deve ter sido objecto de uma tiragem reduzida.

Descobri também que no 10.º volume (X da 1.ª Série) – 1960, do Arquivo do Alto Minho existente na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, consta um artigo da autoria de Francisco Cyrne de Castro, intitulado “Notícias de Tomás das Quingostas”. Logo que tenha oportunidade irei à bela cidade de Viana procurar este artigo na Biblioteca Municipal, para vos reportar mais algumas coisas sobre o misterioso Tomás.

Outra coisa interessante, embora miúdinha, que descobri, foi que o extinto grupo galego de música Rock, chamado “Os Diplomáticos de Monte-Alto” originário da Coruña e um dos pioneiros e maiores representantes do movimento Bravú, editaram um disco em 1999 designado “Capetón” onde consta uma música intitulada “Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente também não consegui detectar nem a música nem sequer a letra, mas dá para perceber que a fama do Tomás chegou mesmo à Coruña!

Os Diplomáticos do Monte-Alto

03/09/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro IV - ANTÕES


ANTÕES [42° 3'20.42"N; 8° 8'29.41"O; Alt: 1061m]:
ANTÕES ou ANTÔNS (na pronúncia castreja) é um topónimo que poderá ter duas possíveis origens:

Poderá tratar-se do aumentativo (plural) de ANTA (monumento megalítico, formado por uma grande pedra horizontal colocada sobre outras mais pequenas e verticais).

Por outro lado o topónimo poderá ter a sua origem no plural de ANTÃO, que era a forma medieval do nome António, o que poderá indiciar que este lugar terá sido fundado por uma pessoa chamada Antão/António e que com o correr dos anos se associou o nome do lugar ao nome do seu fundador e/ou da sua família que seriam os Antões ou seja os descendentes do Antão.

Pessoalmente inclino-me para esta segunda possibilidade, uma vez que embora no planalto a norte dos Antões existam Antas (trata-se mesmo de uma das maiores concentrações de arte megalítica da Europa Ocidental!), julgo que esta palavra “Anta” nunca terá sido usada em Castro. Com efeito estes monumentos megalíticos são ainda hoje designados em Castro por “MOTAS” ou então, no caso de estarem soterradas, por “MAMOAS”.

Os ANTÕES, é uma Branda da margem direita do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para as Brandas de Picotim, Açoreira e Corveira, a primeira e a segunda na margem direita do Laboreiro e a terceira na margem esquerda.

Nos ANTÕES existe uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, cuja festa é celebrada no dia 29 de Agosto de cada ano.

30/08/07

Cabrito de Castro Laboreiro à moda antiga.


INGREDIENTES:

- 1 ou 2 Kg. de Cabrito nado e criado em Castro Laboreiro (de preferência no Ribeiro de Baixo ou de Cima!) cortado em pedaços de cerca de 100 gr;

- Vinho verde tinto qb.;

- Alhos qb.;

- Uma ou duas cebolas;

- Batatas produzidas em Castro Laboreiro;

- Azeite qb.;

- Um ramo de salsa;

- Uma ou duas folhas de loureiro;

- Uma Colher de colorau (vulgo pimentão doce);

- Sal e pimenta qb.

MODO DE PREPARAÇÃO:

Lava-se a carne com água bem fria e retira-se o excesso de gorduras. Depois coloca-se a mesma a marinar em vinha d’alho durante, pelo menos 24 horas.

Decorrido esse tempo, coze-se a carne em água temperada com sal. Quando estiver bem cozida, retira-se a água reservando-se cerca de ½ litro da mesma, após o que se rega o cabrito com um pouco de azeite.

Cozem-se as batatas à parte e colocam-se numa travessa sob a carne do cabrito.

Para o molho adiciona-se um pouco de azeite à água de cozer a carne, junta-se a cebola e a salsa picadinhas, bem como o loureiro o colorau e a pimenta. Mistura-se tudo muito bem e despeja-se uma parte sobre a carne e as batatas, colocando-se o restante numa molheira.

E pronto! Bom apetite!

28/08/07

Faltaram as barraquinhas, faltou o Rancho, faltaram as Concertinas!

Após um mês a "bergar a mola" cá estou eu de novo minha gente! E tenho a dizer que fui a Castro no 15 de Agosto e que vim de lá feliz e infeliz como normalmente acontece sempre que de lá venho!

A infelicidade decorre da pouca expressão que teve a "Festa" do 15 de Agosto. É que, para além do tempo não ter ajudado, ao contrário do ano passado faltou o clima de festa e a animação, faltaram as barraquinhas, faltou o rancho, faltaram as concertinas! Que diabo! Será assim tão difícil organizar uma "festinha" como deve ser!

Mas como disse também tive motivos para vir feliz. E são dois:

Em primeiro lugar e pela primeira vez a Concurso dos Cães foi organizado e gerido pela nóvel Associação Portuguesa do Cão de Castro Laboreiro, formada por uns bravos rapazes da nossa Terra! É assim mesmo pessoal! Finalmente esse evento tão importante para a valorização dos nossos nobres cães é organizado por nós, sem intromissões externas, designadamente por Clubes com sede no Bombarral!

O segundo motivo que me traz feliz é o de saber que o território de Castro continua imune à praga das "eólicas" que nascem por todo o lado como cogumelos degradando e desfeiando paisagens milenares (meu Deus o que fizeram à "Cabeça do Pito"!). Compreendo que haja benefícios económicos e sobretudo ambientais, mas em Castro não por favor!

31/07/07

“Força na Berga”

Criei este Blog no dia 27/06/2007, poucos dias antes de iniciar o meu (merecido!) período de férias. Desde então e até hoje tenho tentado enriquece-lo com informação, original ou pouco conhecida, quase diariamente (salvo aos fins de semana, pois também preciso de sossegar a cabeça!). O resultado não me desgosta de todo, mas tenho a consciência que poderei ainda fazer muito melhor!

Bom, sucede que amanhã regresso ao activo e, como sempre, vou ter toneladas de trabalho para pôr em dia, motivo pelo qual e com muita pena minha, durante alguns dias não terei tempo para trabalhar no Blog, sendo que, por isso mesmo, a publicação de “posts” irá ser agora muito mais espaçada. Espero que esta circunstância não faça perder o interesse das pessoas que me têm visitado, sobretudo daquelas que passam por aqui todos os dias, pois eu sei que as há!

Resta-me pois, agradecer-vos o vosso interesse e pedir-vos um pouco de paciência, pois logo que possa voltarei, com mais assiduidade, a investigar e a escrever sobre a nossa querida terra.

Aos que regressam ao trabalho como eu, desejo coragem e, como se diz na nossa terra, “Força na Berga”! Aos que vão ou estão de férias desejo que descansem o físico e o espírito e se divirtam. Para além disso, tenham muito cuidadinho nas estradas (sobretudo os nossos irmãos emigrantes Castrejos que regressam de carro!) e não se esqueçam de ir a Castro… pelo menos no 15 de Agosto (se calhar vemo-nos por lá é botamos-lhe un cacharrinho ou dous, ond’ó “Mugas” ou, entôn, ond’ó “Labaduras”!).

Um forte abraço Crastejo para todos (daqueles de escanar as costelas).

30/07/07

Conversa Castreja V

O Tio Francisco (TF) e o Vizinho (VZ) vão finalizar a sua conversa, mas não sem antes discorrerem sobre a valentia dos “homes” doutros tempos…

«(VZ): - É d’antes diç ca habia homes mui balentes. Diç que um tal tio Tato do Rodeiro que agarrou um lobo pela garganta, è que o afogou, è que lhe pegou nua perna ó cabalo grande do Tomás das Quingostas (o ladróm mais balente d’estas alturas!), è que o segurou, è que o cabalo a querê’lo coucear, è ele agarrado á perna, è que tirou c’o cabalo ó chão, mais despois o Tomás que o mataba c’um tiro, se nom fugisse.

(TF): - Esse tio Tato eu já nom conheci, mais diç q’andou com meu abô pelos fiandeiros, é dua beç que s’abriu ua sepultura na igreija é que lá aparecêrum os ossos d’ele, q’erã mui grossos, mui grossos, è que todos deziã q’erã os dele. Eu nom sei. Quem fezo a casa do Nelo Cotarelo de Queimadelo foi ele, è diç que foi ele só, é ele só é que botou aqueles côtos todos arriba; diç que nom queria que ninguém o ajudasse. É olha q’ela tem lá bôs côtos…

(VZ): - Pois huje nom hai d’esses homes; só hai p’raí uns froucinhos que nom balem nadinha. Só som bôs p’ra tapar um buraco co’eles!

(TF): - É ós pois, que bá um home dezer-lhe que nom balêm nada, ca lh’esmoqueteã a cara, ou pelo menos tira-lhe um berro como um burro…

(VZ): - Tio Francisco, bou-me comer o cardo, cá j’hã-de ser horas, è a minha Maria nom m’as garda, ca cando tal, tamém s’enrista p’ra mim como um demonho! Intóm digo-lhe adeus até de manhã, se Deus quijer. Olhe q’as noites estão frias. Intóm o milhor é meter-se um home na cama.

(TF): - Pois intóm, até demanhã, se Deus quijer. È cando te parecer, bem perqui, cà eu tenho-che múito que dezer, cá tamém já che tenho uns anos, è eles nom passã sem s’aprênder algo.»

OBSERVAÇÕES AO TEXTO:

- No texto, são referidas três personagens: - O Tio Tato do Rodeiro, o Tomás das Quingostas, e o Nelo Cotarelo de Queimadelo. São quase de certeza personagens fictícias inventadas pelo autor para contextualizar o assunto da conversa. Desconheço as nomeadas “Tato” (embora esta me diga qualquer coisa!) e “Cotarelo”, se alguém tiver alguma indicação objectiva sobre a sua existência actual ou passada agradeço que informem de forma a actualizarmos este “post”. Quanto às Quingostas, julgo tratar-se de uma localização geográfica em Castro (um sítio), porque de facto penso já ter ouvido uma qualquer referência a este nome. Mais uma vez, se alguém tiver dados mais concretos agradeço que me informem.

- “diç q’andou com meu abô pelos fiandeiros”: Um fiandeiro é trabalhador na fiação de fibras. Este aparte do Tio Francisco pode querer significar que, naqueles tempos (estamos a falar do Séc. XIX) terá existido em Castro algum actividade económica na área da fiação, ou então mais certamente, terá havido migração de Castrejos para trabalharem nas indústrias têxteis noutras zonas do país. Contudo, estas decorrências das palavras do Tio Francisco são meras especulações da minha parte, pois não possuo mais nenhum dado que substancie uma ou outra destas hipóteses.

- “é dua beç que s’abriu ua sepultura na igreija é que lá aparecêrum os ossos d’ele”: Foi a partir de um Decreto datado de 18 de Setembro de 1844 do Governo de Costa Cabral (Reinado de Dona Maria II), que passou a ser expressamente proibido os enterramentos de mortos nos locais de culto. Medida esta extremamente impopular e que esteve na génese da revolta popular designada como “Revolução da Maria da Fonte” ou “Revolução do Minho” na primavera de 1846 e que após se ter progressivamente alastrado a todo o Norte do país, teve como consequência indirecta uma Guerra Civil que durou 8 meses e que ficou conhecida como “A Patuleia”.

- “froucinhos”: frouxinhos, diminuitivo de frouxos.

- “ca lh’esmoqueteã a cara”: “Esmoquetear”, dar “moquetes”, esmurrar.

- “tamém s’enrista”: Também se encrista, ou seja fica zangada e tal como os galos levanta crista (figurativamente, claro!).

Assim termina este interessantíssimo texto que, malgrado as imperfeições e incoerências, é um documento precioso pois, para além de ser um repositório de expressões fonéticas antiquíssimas, trata-se, provavelmente, do primeiro texto em que se ensaia um modelo de transposição gráfica da “fala” Crasteja (veja-se as considerações e a contextualização deste documento expendidas no “post” Conversa Castreja I).

27/07/07

Notas sobre a toponímia de Castro Laboreiro III - AMEIXOEIRA


AMEIXOEIRA [41°59'9.58"N; 8° 9'28.20"O; Alt: 780m]:

Ameixoeira é uma palavra sinónima de Ameixieira ou Ameixeira, ou seja, a árvore da família das rosáceas, cujo fruto é a ameixa. Já Ameijoeira, como é uso escrever-se no português-norma, se trata de um equipamento ou instrumento utilizado para pescar amêijoas.

Perante isto e não se vislumbrando outra explicação, julgo que o topónimo, terá a sua origem no facto de existirem Ameixoeiras no lugar em questão, já que amêijoas não é de todo possível (nem sequer fossilizadas como pelo vistos acontece ou aconteceu na freguesia da Ameixoeira no concelho de Lisboa. Também, por certo a origem do topónimo não pode estar em “Meixões”, ou seja os alevins das enguias também designados “Angulas”, porque embora este peixes entrem nas águas doces, é fisicamente impossível que alguma vez tenham chegado ao tramo do Rio Laboreiro situado na zona da Ameixoeira.

A ser acertada a tese de que o nome do lugar tem a sua origem na “árvore da família das rosáceas, cujo fruto é a ameixa”, a forma correcta de escrever o topónimo é Ameixoeira e não Ameijoeira, tratando-se esta última forma, como já disse, de uma adulteração (que aliás produz, como vimos, um resultado ridículo!) provocada pela norma linguística imposta, subrepticiamente, pelo Estado português no seu secular afã de uniformizar e desgaleguizar a “fala” das terras raianas, utilizando para isso mecanismo vários, como neste caso, através da substituição gráfica do “X” pelo “J”, ou noutros, substituindo o “B” pelo “V”.

A Ameixoeira, é uma Inverneira da margem esquerda do Rio Laboreiro, sendo que os seus habitantes mudam sazonalmente para as Brandas de Curral do Gonçalo, Campelo e Eiras, todas, igualmente, da margem esquerda do Laboreiro.

Na Ameixoeira existe uma capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte, cuja festa é celebrada no dia 19 de Setembro de cada ano.

Para além disso, na Ameixoeira situa-se uma das três passagens viárias da fronteira existentes no Concelho de Melgaço (as outras são em São Gregório e na ponte Melgaço-Arbo). O Município Espanhol (Galego) vizinho da Ameixoeira, designa-se “Terrachán” com sede em “Entrimo”.


26/07/07

Conversa Castreja IV

Depois do Tio Francisco ter perorado sobre o progresso, a religião e o temperamento feroz do Senhor Reitor (ver Conversa Castreja III) a conversa irá agora derivar para as farturas e as misérias doutros tempos:

«(VZ): - Olhe, tio Francisco: é d’antes diç qu’habia muito dinheiro, é qu’a gente andaba sempre com fartura. É huje qu’hai?

(TF): - Nom que d’antes aqui nesta freiguesia só ch’habia as botas do Senhor Reitor, uas botas que lhe chegabã ó giolho, e só as lebaba p’rá igreija cando dezia a minsa, è demais nom ch’habia outras em toda a freiguesia; è um ano o Nelo dos Coutos, que já nom binha de Castilha hai quatro anos, trougo uas botas comàs do Senhor Reitor, è nom ch’as podo rumper, cà era o espelho dos outros todos; cando se saía da minsa, todos reganhabã o dente, d’ele se querer cumparar ó Senhor Reitor. É huje, huje nom hai cã nim gato que nom tenha uas botas è um chapéu è um relógio. E às mulheres fazia uns abarqueiros que lhe duraba dous anos, è huje já che trajêm çapatos è çoques com brochas marelas, è òs abarqueiros jòs nom querem, jós nom hai, è já hai panos de seda, è d’antes só habia capelas p’rá cabeça, è nom se bia um pano, nim de seda, nim dos outros nessa igreija. É aí che stá a razóm porque che nom hai dinheiro, porque o gastã nessas chincharias.»

Observações ao texto:

- «Nelo dos Coutos»: A menos que “DOS COUTOS” se trate da nomeada de uma família ou a de uma designação geográfica entretanto desaparecidas, deve tratar-se de um erro do autor a nível da transcrição gráfica da expressão fonética, na medida em que, em vez de “DOS COUTOS” provavelmente quereria dizer “DOS COTOS”, porque, esta sim, é uma designação que ainda hoje existe. Com efeito, ainda hoje se designa aquela zona do Lugar da Vila onde se situam a “Casa Castreja” e o Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, como sendo “OS COTOS”.

- «cà era o espelho dos outros todos»: Desconheço tal expressão, provavelmente é daquelas que caiu em desuso com o passar do tempo. Pelo contexto retira-se que quererá significar que todos lhe olhavam para as botas com inveja!

- «Cã»: - Cão.

- «abarqueiros»: - Trata-se, sem dúvida de um tipo de calçado rude, talvez uns “çoques” menos sofisticados do que aqueles que o Tio Francisco refere, ou seja “(…) com brochas marelas (…)”.

- «jós»: Já os.

- «capelas p’rá cabeça»: Refere-se, sem dúvida, às tradicionais capas de pano negro (burel), ainda hoje utilizadas em Castro.

- «chincharias»: Quinquilharias.

A conversa continua e finaliza no próximo capítulo, onde se falará dos “homes” valentes doutros tempos.

25/07/07

"en canto o mundo siga a se-lo mundo"


Despedida ao Crasto Laboreiro

Eu, que nunca eu dixera, escado os cotos
do Crasto Laboreiro, moumo urces
e dígovos que nada me conmove.
Sinto que a espada está vencida e corva.
Morte que me morceas, non me asustas.
Os corgos seguirán onde adoitaban.
Outros homes virán onde eu vivira.
No Crasto Laboreiro ha haber codesos,
carqueixas e herbas más descontra Gorgua
en canto o mundo siga a se-lo mundo.
O meu dó será lene bris de Outono,
e este adeus ás matérias e enerxías
en ningures será nunca lembrado.

Xosé Luís Méndez Ferrín in Estirpe (1994)

24/07/07

‘La indecisión es la llave a la flexibilidad’


No dia 4 de Janeiro de 2007 um grupo de bravos “Kayakers” Irlandeses (Celtas portanto!), desceram o Laboreiro desde a Ameijoeira até ao Ribeiro de Baixo num dia de nevoeiro. Tiraram fotografias absolutamente assombrosas, entre as quais a mais fantástica (para mim!) é a que vai publicada a encimar este “Post”.

Outras fabulosas:



Aqui a coisa não saiu conforme estava planeada:



Perante estas fotografias uma coisa é certa: - Este desporto é espetacular mas “hai que os ter no sítio” para alguém se atrever a pratica-lo, sobretudo em pleno Inverno. Tiro aqui o meu chapéu a estes valentes "Paddy's"!

Vejam o site e mais fotografias aqui.