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10/07/08

O Carteiro de Castro Laboreiro


“O” Carteiro de Castro Laboreiro foi e, enquanto perdurar a sua memória, há-de sempre ser o saudoso Nelo “Picota”.
Pessoa extremamente simpática, amável e dotado de um peculiar sentido de humor, o Nelo fartou-se de calcorrear a freguesia a entregar as novidades e as cartinhas vindas, sobretudo, da França e que traziam, como ainda hoje trazem, os cheques das reformas tão duramente conquistadas pelos nossos conterrâneos que esfolaram os lombos desde a mais tenra idade naquele país, fugindo à álgida avareza desta nossa querida terra.
O Nelo para além de ser “O” Carteiro também era "O" Sacristão e “braço direito” do Senhor Abade, coadjuvado, nestes ofícios, pela “Lissa”, sua irmã que ainda hoje, após o triste decesso do Nelo, exerce, competente e valorosamente, a nobre e piedosa função de ser a “Sacristã” da Igreja de Santa Maria de Castro Laboreiro. Fenómeno raro este da “Lissa” ser “Sacristã”! Não devem haver muitas mulheres, na cristandade, a exercer tais funções! Por isso sejam discretos e não se ponham a espalhar por aí a notícia de tal fenómeno, isto porque se a coisa chega a Roma nunca se sabe o que poderá acontecer!?
Dizia eu que o saudoso Nelo “Picota” foi, e enquanto a sua memória perdurar, há-de ser “O” Carteiro de Castro Laboreiro. Bom! Convém desde logo que se saiba que isto de ser o Carteiro de Castro Laboreiro, como de uma qualquer outra terra esquecida nos confins desta tão maltratada Pátria, não é uma profissão qualquer! Não é não senhor! Não se trata de um mero e rotineiro funcionário que ciclicamente vai pelas ruas a enfiar sobrescritos em caixas de correio! Não é como o carteiro da cidade que, se casualmente encontramos, nos merece este fugaz pensamento: -“Ah! É o carteiro!” E não lhe ligamos nenhuma, porque afinal é só um tipo que está ali a cumprir uma tarefa que no nosso íntimo, bem lá nas obscuras profundezas do nosso íntimo, consideramos desagradavelmente subserviente! Ser Carteiro em Castro Laboreiro é coisa absolutamente diversa!
Se não acreditam vejam estas fotografias da autoria do Pedro Vilela, de seu pseudónimo Dexter! Trata-se de uma reportagem fotográfica composta pelo autor que, num frio e chuvoso dia de Primavera, acompanhou efectivamente o actual Carteiro de Castro Laboreiro no cumprimento das suas obrigações profissionais. São fotografias magníficas onde a estranha simbiose entre autenticidade e o intimismo nos revelam um Castro Laboreiro deslumbrantemente belo e digno na sua altiva e despretensiosa solidão.
Apresento aqui o meu protesto de gratidão ao Pedro Vilela e, principalmente, aos Carteiros de Castro Laboreiro, de hoje e de sempre!

02/05/08

O Judeu que viveu em Castro Laboreiro


Luís Henriques Julião, filho de Julião Henriques e de Branca Rodrigues, casado com Filipa Dias era natural de Vila Flor e exercia a profissão de mercador em Castro Laboreiro.
A vida até lhe não corria mal de todo, contudo sobre a cabeça incauta do nosso amigo Julião pairava um pesado estigma: - O coitado era “Cristão-Novo” e, assim, num belo dia de (14) Maio de 1656, foi preso à ordem do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) de Coimbra e acusado da prática do crime de Judaísmo.
A partir daí a vida não foi nada fácil para o nosso Luís Julião, pois “gramou” 4 anos de prisão e, com certeza, algumas saudáveis e revigorantes sessões de tortura, até ser proferida a sentença do seu caso; o que só veio a acontecer em 23/05/1660, sendo que nesse mesmo dia foi realizado o costumeiro Auto de Fé.
Nesse Auto de Fé, o Luís Julião deve ter abjurado a “Fé de Moisés”, sendo que provavelmente e tal como era hábito neste casos, lhe foram impostas determinadas obrigações, tais como:
- Usar hábito penitencial.
- Ir á missa aos domingos e nos dias santos;
- Confessar-se nas 4 festas do ano: - Natal, Páscoa, Espírito Santo e Assunção de Nossa Senhora e comungar se o confessor assim o entendesse;
- Jejuar todos os sábados e rezar o rosário de Nossa Senhora;
-Apartar-se da “gente da nação” e cumprir tudo o que prometeu na abjuração.
Bom! O certo é que o nosso Luís Julião, apesar de tudo acabou por se safar senão com a saúde toda, pelo menos com alguma, visto que nesse mesmo dia 23/05/1660, foi lavrado o, designado, “Termo de Soltura e Segredo”, por via do qual o condenado foi devolvido à liberdade, com a condição de manter o segredo sobre tudo quanto tinha visto ou ouvido no decurso do processo. Esta última condição era de capital importância dada a política de sigilo processual que caracterizava os Tribunais do Santo Ofício, tanto que, no momento em que assinou o tal “Termo”, o bom do Luís Henriques Julião, sabia que se alguma vez lhe desse para abrir o bico, voltava, com toda a certeza, a malhar com os costados nos calabouços da Inquisição.

Desconhece-se se este pobre coitado alguma vez voltou a Castro Laboreiro!
Bibliografia: - A "Inquisição Portuguesa: Tempo, Razão e Circunstância". Autores diversos, coordenação de Luís Filipe Barreto, José Augusto Mourão, Paulo de Assunção, Ana Cristina da Costa Gomes, José Eduardo Franco, Ed. Prefácio, Lisboa - São Paulo, Janeiro de 2007

29/02/08

O Castelo segundo o Senhor Abade

Fotografia: pela lente

O falecido Padre Aníbal Rodrigues, familiarmente conhecido em Castro como "O Senhor Abade", foi uma figura incontornável no Castro Laboreiro da segunda metade do Séc XX. Entre os seus muitos méritos enquanto homem e sacerdote, o Senhor Abade dedicou-se à elaboração de pequenos Estudos Monográficos sobre o Património Histórico-Cultural de Castro Laboreiro. Claro que quem tiver o subido privilégio de conhecer tais Estudos e possua alguma bagagem cultural, depressa se aperceberá que ao Padre Aníbal onde lhe faltava o rigor metodológico do cientista social lhe sobrava a paixão ardente pela sua terra e pelas suas gentes! Por isso é que, embora os seus Estudos Históricos não possam, em muitos aspectos, ser considerados como trabalhos cientifícos (ao contrário dos trabalhos de outro sacerdote castrejo - O Padre Bernardo Pintor - , nos quais sobreleva o rigor metodológico do historiador), são, apesar disso, pitorescos e curiosos opúsculos, onde o saudoso Senhor Abade exprimiu todo o Amor que sempre teve à sua terra.


Um destes Estudos designa-se "O CASTELO DE CASTRO LABOREIRO" e consta da Separata de ESTUDOS REGIONAIS, Viana do Castelo: Centro de Estudos Regionais. 1996, Vol.17. Neste Estudo encontra-se um poema do Padre Aníbal que, à parte os méritos literários, ilustra à saciedade o que acima se disse. Passo a citar:


«Castelo, pastor Amigo
Das rezes da velha Grei
Deixa-me falar contigo,
Ouvir coisas que eu não sei.

O teu arnês de guerreiro,
Há quanto tempo o não vejo;
Mudaste-o em pegureiro,
Ou deixaste-o n'algum brejo.

Tua cabeça branquinha,
Parece o lírio do campo,
Inclinada à tardinha
à espera do descanso.

A bela lança d'outrora,
Arrogante e combativa,
Já se oxidou por fora,
Por dentro está combalida.

Teu olhar embaciado,
Quem o há-de conhecer?
Parece o sol nublado,
Pouco antes de morrer.

A tua voz de trovão
Sufocou-se na garganta,
Já não comanda o pelotão,
Não se ouve na Infanta.

A tua face enrugada
Não é dum velho Gigante
Que enfrentou a montanha,
Com aspecto arrogante.

A tua flauta tão linda,
Não se ouve como outrora,
No alto da Cartelinda,
Pelas quebradas em fora,
A chamar as ovelhinas,
Ao sol pôr e vir d'aurora.»

Castro Laboreiro, 12/8/1994

04/09/07

O Tomás das Quingostas

O Boaventura Eira-Velha, ilustre Cavenquense e autor do magnífico Blog Memórias…, num comentário ao “post” Conversa Castreja V diz-nos que embora não haja documentação que claramente o comprove é mais do que provável que tenha existido o Tomás das Quingostas, que terá sido uma figura equiparável ao famoso Zé do Telhado, ou seja uma espécie de Robin dos Bosques à portuguesa. Bom, a coisa deixou-me curioso e decidi fazer uma pequena investigação para tentar descobrir mais alguma coisa sobre este mítico bandoleiro raiano.

Ora, o que de mais significativo fiquei a saber foi da publicação recente (Edição de Autor) de um romance histórico com base nesta personagem, intitulado “ O Tomás das Quingostas” da autoria de José Alfredo Cerdeira.

Fiquei ainda a saber que no passado dia 11 de Agosto, no âmbito do 6.º Congresso de História Local, organizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro, foi efectuada uma apresentação deste romance por parte do seu autor e que, para além disso, também no âmbito deste Congresso, Joaquim Rocha dissertou sobre a “Vida de Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente não estive presente nesta manifestação cultural, porque não tenho qualquer dúvida tanto do interesse do romance como da mencionada dissertação.

Resta contudo a possibilidade de adquirir o Livro e de assistir à uma outra apresentação do romance que será levada a cabo pelo seu autor no próximo dia 28 de Setembro na Livraria Centésima Página sita no n.º 118/120 da Avenida Central em Braga. Infelizmente não terei a oportunidade de ir a esta apresentação, mas logo que possa adquirirei o romance em causa, embora não preveja grandes facilidades, uma vez que sendo, como é, uma Edição de Autor, deve ter sido objecto de uma tiragem reduzida.

Descobri também que no 10.º volume (X da 1.ª Série) – 1960, do Arquivo do Alto Minho existente na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, consta um artigo da autoria de Francisco Cyrne de Castro, intitulado “Notícias de Tomás das Quingostas”. Logo que tenha oportunidade irei à bela cidade de Viana procurar este artigo na Biblioteca Municipal, para vos reportar mais algumas coisas sobre o misterioso Tomás.

Outra coisa interessante, embora miúdinha, que descobri, foi que o extinto grupo galego de música Rock, chamado “Os Diplomáticos de Monte-Alto” originário da Coruña e um dos pioneiros e maiores representantes do movimento Bravú, editaram um disco em 1999 designado “Capetón” onde consta uma música intitulada “Tomás das Quingostas”. Lamentavelmente também não consegui detectar nem a música nem sequer a letra, mas dá para perceber que a fama do Tomás chegou mesmo à Coruña!

Os Diplomáticos do Monte-Alto

12/07/07

Paris, as trutas e as saudades do “Tio Zé Cobelo”

«Agora aqui em Paris
cidade que o mundo inveja
sinto saudades da minha terra
e do sino da nossa igreja
Saudades em que se abrasa
a minha alma castreja.»

(Poema da autoria de José Joaquim Esteves, mais conhecido por “Tio Zé Cobelo”)

Estou seguro de que muitos dos que visitam este blog conheceram o Tio Zé Cobelo, já falecido (tragicamente!) há umas boas dezenas de anos. Esses sabem que para além de se tratar de um homem bom e honrado, foi um pescador e caçador sem igual, uma verdadeira lenda da pesca à truta e da caça ao coelho e sobretudo, à perdiz. Foi Mestre e inspirador de várias gerações de pescadores e de caçadores castrejos e até de outras zonas do país que se deslocavam a Castro para ter o prazer de praticar aquelas actividades na companhia sempre didáctica do Tio Zé. O grande realizador português Jorge Brum do Canto que nos finais dos anos 60 do século passado rodou em Castro Laboreiro o filme chamado “A Cruz de Ferro”, e que tinha a fama de ser um pescador de trutas e de achigãs ímpar (foi mesmo um dos introdutores desta última espécie em Portugal), chegou a dizer, sobre o Tio Zé numa entrevista que “em Castro Laboreiro encontrei, por fim, um Mestre”.

Eu, que também tinha a mania que era pescador de trutas, encontrei-o várias vezes no Rio, ali para os lados do “Salto do Gato” ou, mais abaixo, na “Assureira” ou em “Mareco”. Era eu rapazote dos meus 14 ou 15 anos e lembro-me que mal o via ia-me aproximando, rapidamente, se calhava de ir atrás dele, ou atrasando-me, se ia à frente, para ver se ele me apanhava e chegávamos à fala. Mas estes expedientes não eram necessários, pois o Tio Zé, com aquela bondade e generosidade que sempre o caracterizaram, mal me via chamava-me e logo dizia: “Quê rapaz? Que tal te corre o dia?” e este era o início de uma saborosa conversa/aula (mais ainda se o neto dele, o Zé Eduardo, mais ou menos da minha idade, o acompanhava como acontecia frequentemente!) sobre as trutas, e a influência do tempo no comportamento das mesmas, qual a técnica que se deveria utilizar naquele dia ou naquela época do ano. Como é óbvio o Tio Zé era um especialista inultrapassável nas várias técnicas de pesca à truta no Rio Laboreiro: - à minhoca, à bóia, à amostra ou “Lancê”, e à “mosca” ou “pluma”, aquilo que hoje se chama Fly-fishing, e que é, sem dúvida, a mais distinta e espetacular das técnicas e, por isso mesmo, aquela que o Tio Zé preferia. Já eu, era só pesca à Minhoca (e sabe Deus!) que praticava com uma cana que era um verdadeiro “estadulho”. Depois, o Tio Zé, face às minhas insistentes perguntas sobre a pesca “à pluma”, que me fascinava, como ainda hoje me fascina, se calhava de levar a cana dele, logo me punha “ensaiar” dando-me os conselhos necessários com aquela calma, bonomia e proficiência que caracteriza os homens nobres, generosos e sábios. Tenho muitas saudades do “Tio Zé” e daquelas tardes de pesca no maravilhoso Rio Laboreiro!

Ora, o Tio Zé como tantos outros Castrejos também foi emigrante, em Espanha e em França, tal como me disse o “Tio Adelino Cobelo”, filho do Tio Zé e Presidente da Junta de Castro Laboreiro, numa conversa que tivemos em casa dele há já bastantes anos e, no decurso da qual, me mostrou e me deixou copiar um pequeno manuscrito do “Tio Zé” onde constava o poema que coloquei no início deste “post”.

É um pequeno poema na forma mas grande no conteúdo, pois expressa comoventemente o sentimento do castrejo migrante de ontem, de hoje e de sempre.

Bem haja o bom do “Tio Zé Cobelo” e que esteja feliz lá onde estiver, se possível a ensinar os Anjos e os Santos a pescar trutas e a caçar perdizes, como só ele sabia fazer.

02/07/07

Quinhas e a Viagem ao Princípio do Mundo


Em Castro não há quem não conheça a “Maria Carboeira”, mais familiarmente tratada por “Quinhas”. O que poucos sabem é que a Quinhas foi figurante involuntária no filme “Viagem ao Princípio do Mundo” de Manoel de Oliveira, rodado parcialmente em Castro e que tem a particularidade de ser o último filme de ficção protagonizado pelo grande Marcello Mastroianni (1923-1995)! Ah pois é!

http://www.madragoafilmes.pt/viagemaoprincipiodomundo/#

Aliás a cena onde ela aparece é hilariante, pois trata-se de uma filmagem feita sobre o Eirado, a partir da varanda da casa dos Canavezes. A “Quinhas” está junto ao cruzeiro de braço no ar a vociferar contra o cameramen e a manda-lo para aquela parte, como, aliás, sempre faz a todos os desconhecidos (e a muitos conhecidos!) que encontra a jeito.

Grande Quinhas! É assim mesmo! A autenticidade acima de tudo!