25/07/08

Num chão frio...frio...

À falta de tempo para escrever sobre a nossa terra (isto tem andado complicado por causa da aproximação das férias!) apresento-vos a este senhor que aqui canta e que na passada sexta-feira deu um dos seus, cada vez mais raros, concertos ao vivo em Milão no Teatro Degli Arcimboldi. Chama-se Tom Waits, faz parte da banda sonora da minha vida, e é um génio! Músico, actor (é lendária a sua performance no Bram Stoker's Dracula de Francis Ford Copolla!) e último poeta "beatnick" vivo, descendente em linha directa do "Rei" Jack Kerouac!

Faz parte do meu imaginário da América, da grande América, da América criativa, humanista, tolerante e libertária, não desta pequena América belicista e arruaceira que o Sr. Bush e os seus sicários têm imposto ao Mundo nos últimos anos.

God Bless ... Tom Waits

God Bless America ... Land of the free... Home of the brave ....

18/07/08

Crónica da restauração do Pelourinho de Castro Laboreiro

Entre os muitos e meritórios serviços que o falecido Padre Aníbal Rodrigues prestou à nossa terra, distingue-se a restauração do velho Pelourinho de Castro Laboreiro. Eis aqui o relato dessa façanha, publicado pelo próprio Senhor Abade, nos Cadernos Vianenses, Edição do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Tomo II, 2.ª Edição, 1979, págs. 22 a 25:
«(…) Embora Castro Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560, tendo-lhe sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513. Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel, rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região desde 1560 a 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma casa particular.
Os degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte do muro de um quinteiro.


O fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa construída onde ele se encontrava antes de ser destruído. Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações para descobrir o seu capitel. Depois de numerosas pesquisas, fui encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns trezentos metros num muro dobrado e de alvenaria irregular. Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me foi possível desmontá-lo do respectivo muro com auxílio dos pedreiros reconstrutores das muralhas do castelo. Depois do mesmo se encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi possível descobrir a pequena pirâmide.


Os trabalhos de investigação para reunir os três elementos desta preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total identificação dos seus elementos e sua restauração?

Mercê dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo Sr. Coronel Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de estudo a Castro Laboreiro; e que servindo-se das preciosas informações do Castrejo Sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a desmontar e destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com muita precisão representar a lápis este monumento no artístico esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus elementos (...).

Foi com esse referido esboço e memória descritiva de todas as peças de que este monumento constava que consegui levar a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como autênticos todos os elementos descobertos podendo solicitar àquela entidade a sua imediata restauração.


Quero manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos das propriedades urbanas, onde as peças em referência se encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento aos meus estimados amigos, Sr. Dr. Oliveira e Silva, digníssimo Governador Civil de Viana do Castelo; ao Sr. Eng.º José Maria Moreira da Silva, digníssimo Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês; ao Sr. Arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do Porto; ao Sr. Professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, e ao Sr. Adelino Esteves digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário. Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.
Castro Laboreiro, 10 de Fevereiro de 1979»

Vinte e quatro anos durou a odisseia da restauração do Pelourinho quinhentista do velho concelho de Castro Laboreiro. Grande Padre Aníbal! Como disse o Aquilino Ribeiro, remoçando o velho provérbio português: - «Alcança quem não cansa»!

16/07/08

Bocanegra




Aqui está o último representante da nobre linhagem dos bocasnegras.

Trata-se de um carro conceptual da Seat apresentado no Salão de Genebra 2008. Pelos vistos parece que vai ser produzido em série!

Quero um!

10/07/08

O Carteiro de Castro Laboreiro


“O” Carteiro de Castro Laboreiro foi e, enquanto perdurar a sua memória, há-de sempre ser o saudoso Nelo “Picota”.
Pessoa extremamente simpática, amável e dotado de um peculiar sentido de humor, o Nelo fartou-se de calcorrear a freguesia a entregar as novidades e as cartinhas vindas, sobretudo, da França e que traziam, como ainda hoje trazem, os cheques das reformas tão duramente conquistadas pelos nossos conterrâneos que esfolaram os lombos desde a mais tenra idade naquele país, fugindo à álgida avareza desta nossa querida terra.
O Nelo para além de ser “O” Carteiro também era "O" Sacristão e “braço direito” do Senhor Abade, coadjuvado, nestes ofícios, pela “Lissa”, sua irmã que ainda hoje, após o triste decesso do Nelo, exerce, competente e valorosamente, a nobre e piedosa função de ser a “Sacristã” da Igreja de Santa Maria de Castro Laboreiro. Fenómeno raro este da “Lissa” ser “Sacristã”! Não devem haver muitas mulheres, na cristandade, a exercer tais funções! Por isso sejam discretos e não se ponham a espalhar por aí a notícia de tal fenómeno, isto porque se a coisa chega a Roma nunca se sabe o que poderá acontecer!?
Dizia eu que o saudoso Nelo “Picota” foi, e enquanto a sua memória perdurar, há-de ser “O” Carteiro de Castro Laboreiro. Bom! Convém desde logo que se saiba que isto de ser o Carteiro de Castro Laboreiro, como de uma qualquer outra terra esquecida nos confins desta tão maltratada Pátria, não é uma profissão qualquer! Não é não senhor! Não se trata de um mero e rotineiro funcionário que ciclicamente vai pelas ruas a enfiar sobrescritos em caixas de correio! Não é como o carteiro da cidade que, se casualmente encontramos, nos merece este fugaz pensamento: -“Ah! É o carteiro!” E não lhe ligamos nenhuma, porque afinal é só um tipo que está ali a cumprir uma tarefa que no nosso íntimo, bem lá nas obscuras profundezas do nosso íntimo, consideramos desagradavelmente subserviente! Ser Carteiro em Castro Laboreiro é coisa absolutamente diversa!
Se não acreditam vejam estas fotografias da autoria do Pedro Vilela, de seu pseudónimo Dexter! Trata-se de uma reportagem fotográfica composta pelo autor que, num frio e chuvoso dia de Primavera, acompanhou efectivamente o actual Carteiro de Castro Laboreiro no cumprimento das suas obrigações profissionais. São fotografias magníficas onde a estranha simbiose entre autenticidade e o intimismo nos revelam um Castro Laboreiro deslumbrantemente belo e digno na sua altiva e despretensiosa solidão.
Apresento aqui o meu protesto de gratidão ao Pedro Vilela e, principalmente, aos Carteiros de Castro Laboreiro, de hoje e de sempre!

04/07/08

Castro Megalítico



No passado dia 13/06/2007, o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, e a Câmara Municipal de Melgaço, formalizaram junto da Direcção Regional da Cultura a proposta de classificação dos Monumentos Megalíticos e Arte Rupestre do Planalto de Castro Laboreiro. Leiam aqui.

Vamos ver se é desta que, finalmente, uma das maiores riquezas culturais e patrimoniais de Castro Laboreiro é revalorizada, preservada e potenciada, ou seja, vamos lá ver se, por fim, alguém olha como deve ser para o que resta da grande necrópole megalítica situada no planalto castrejo.

Um grande "bem hajam" para o ICN e para a Câmara Municipal de Melgaço, que mais uma vez demonstra o cuidado, o esmero e a preocupação com que nas últimas décadas tem tratado Castro Laboreiro.

Sobre este assunto leiam também (aqui) o magnífico comentário do Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro.

03/07/08

Castro Laboreiro, 1826


«CASTRO LABOREIRO, Villa R. Portugal, prov. Entre Duero y Miño, comarca de Barcelos; parroquia, cabeza de la encomienda de la órden de Cristo. Su vecindario asciende a 436 fuegos y 1,495 habitantes. En lo mas elevado de las montañas que separan esta provincia del reino de Galicia, y de la de Traz-los-Montes, está esta villa a 2,5 leguas al S.E. de Melgazo. Es pais muy frio e fragoso, de donde dicen los autores portugueses, que le viene el nombre de Laboreiro. Su castillo está situado em peña viva, y rodeado de una muralla sencilla con 2 puertas.. En una terra tan áspero y frio, no es de admirar que sus productos esten reducidos á poco cent., mijo y nabos, pero lo que le falta en granos, lo resarce en gado lanar, particularmente churro de la mejor casta, de cuya lana hacen escelente buriel que es la industria de sus moradores. Los árboles son igualmente poco frequentes, y los que hay que se reducen a pequeños robles de mala especie. Sus montes abundan de todo género de salvagina, y unos arroyos que passan por su término, en escelentes truchas.»
in: DICCIONARIO GEOGRAFICO-ESTADISTICO DE ESPAÑA E PORTUGAL, Sebastian de Miñano; Madrid 1826.
Um panorama desolador! Salvam-se os nabos, o "mijo", o gado lanar, as "truchas" e, claro, a abundante "salvagina"!

27/06/08

Primeiro Aniversário


Faz hoje exactamente um ano que iniciei este "longínquo" Blog sobre Castro Laboreiro.

Decorrido um ano a intenção mantém-se: - Falar de Castro, divulgar Castro, acarinhar Castro! Isto apesar de algumas derivas intimistas que não tive o bom gosto de conter!

Julgo que o esforço tem valido a pena. As mais de 6000 visitas ao Blog durante este último ano assim o parecem demonstrar! Mas mesmo que assim não fosse, mesmo que só fossem seis, sessenta ou seiscentas, teria valido a pena porque o prazer que tenho retirado desta realização tem sido imenso e ainda porque, como dizia o outro: - "A alma (de Castro Laboreiro, diria eu!) não é pequena!"

Agradeço a todos os visitantes que passaram e passam por aqui, mas sobretudo aos meus amigos Eira-Velha e Fotógrafa, que, tantas e tantas vezes, com os seus comentários tem impedido que me sinta um pregador no deserto!

De resto, garanto que, com ou sem deserto, vou continuar "até que a voz me doa"! E esta noite vou beber uma "champanhada" por conta do "Longe..." e à vossa saúde!

Abraços para todos.

19/06/08

Trajo de Noiva


«A saia era feita de tecido xadrez, da Covilhã. Chegava a ter dois metros de largura e o comprimento ia até ao tornozelo. A beira da saia era debruada com uma fita de lã preta, à qual se seguia uma barra de um palmo de veludilho preto e cima desta uma tira de cetim da mesma cor. A barra de veludo era contornada com um fitilho de lantejoulas e vidrilhos.
A blusa era de castorina de cor escura. apertava à frente com botões e a manga era comprida. Por cima levava um peitilho em renda.
Algumas noivas, nem todas, vestiam um casaco de casimira ou saragoça preta, cujo comprimento não chegava bem à cinta. Aplicava-se-lhe também como guarnição uma tira de veludilho à volta e outra na ponta das mangas.
O "mandil" também preto, ou era de cetim com barra de veludo, ou de veludo com barra de cetim.
Na cabeça levavam as noivas um lenço de seda que, segundo a opinião da nossa informadora, era lindo: dourado, florido com franjas a toda a volta . Atavam as duas pontas sob o queixo.
Usavam ainda um xaile de casimira preta com barras às cores de larga franja tecida. O xaile era simplesmente posto sobre os ombros, sem ser traçado.
A saia, que usavam por baixo, era de linho e enfeitada com rendas e entremeios de crochet.
Ao pescoço, as noivas traziam um cordão de ouro com 3 ou 4 voltas, oferecido pelo noivo. Uma das voltas deste cordão passava por vezes debaixo do braço.
No dia da boda as noivas usavam sapatos.
(...)
Segundo informações que nos foram prestadas, o primeiro casamento que se realizou na "Vila" com noiva à moda da cidade, isto é, sem ser à moda da terra, data de há 12 anos atrás. Depois deste, o hábito pegou de forma radical e hoje já ninguém leva o trajo tradicional.
Sobre a quebra de tal costume, uma jovem na casa dos 19 anos, ainda solteira, deplorava que o tradicional trajo de noiva tivesse sido preterido por outro tão incaracterístico e a todos os títulos mernos belo. Acalentava o sonho de ir vestida, se o namorado a isso não se opusesse, como as noivas antigas da sua terra, porque, segundo a sua opinião, a modernização não devia destruir o que de belo havia na vida da sua gente. Era uma moça inteligente, que tinha noções concretas e muito bem concertadas sobre o valor da cultura tradicional e do que havia de secundário e essencial nela.»

Alice Geraldes: CASTRO LABOREIRO E SOAJO - Habitação, vestuário e trabalho da mulher; Edição do Serviço Nacional de Parque, Reservas e Património Paisagístico, Lisboa 1979

A Professora Alice Duarte Geraldes, que foi durante muitos anos docente da Universidade do Minho na área da Sociologia e da Antropologia é uma das cientistas sociais portuguesas que mais estudou a sociedade castreja nos seus vários aspectos: - Sociológicos, antropológicos etc... O seu trabalho desenvolvido em Castro Laboreiro em finais da década de 70 do século passado é por isso uma referência incontornável para quem pretenda ter uma visão minimamente consistente da sociedade castreja não só dessa década mas também das décadas anteriores.

Lembro-me de ter tido o prazer de a conhecer pessoalmente, era eu um miúdo de cerca de 12 ou 13 anos. Recordo-me de uma pessoa extremamente calma, simpática e afável, sentada num escano da nossa casa velha a ouvir as velhas estórias da minha avó enquanto a ajudava com o fuso e com a roca, desfazendo-lhe os nós da lã a ser fiada. A Professora Alice era e ainda é uma a pessoa muito querida para todos os castrejos que se lembram dela.

O texto que acima publico foi retirada de uma das suas obras fundamentais sobre Castro Laboreiro, publicada em 1979 "CASTRO LABOREIRO E SOAJO - Habitação, Vestuário e Trabalho da Mulher". Este texto para além de ser a único documento que conheço onde consta uma descrição do velho trajo das noivas Castrejas, tem também a particularidade de conter a preciosa informação sobre a época em que tal trajo foi substituído pelo "trajo da cidade", ou seja pelos modernos vestidos de noiva. Sobre isto refere a Professora Alice que segundo informações que lhe foram prestadas tal transformação se terá dado "há 12 anos atrás" ou seja por volta de 1967.

13/06/08

Pessoa a 120 anos por hora


«Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro?
O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como um animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu.
O processo tinha que ser outro - um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro?
O processo era só um - adquiri-lo, adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência.
Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase actual - a comercial e bancária, meu amigo - do meu anarquismo».
O meu "Pessoa" de estimação foi desde sempre, e há-de continuar a ser, o "desassossegado" Bernardo Soares, mas, verdade seja dita: - O "Banqueiro Anarquista" nunca abandonou a minha mesinha de cabeceira desde que nos conhecemos! E isto já lá vai há um valente par de anos!
A velha nota de cem escudos é a suprema ironia!?

12/06/08

As Mulheres de Castro Laboreiro


«No tempo em que os portugueses disputavam com os castelhanos as terras do Alto-Minho, um exército lusitano, composto por quinze mil homens, batalha os galegos nas margens do Minho. De tal forma era bem sucedido o seu empenho, que chegam a provar o delicioso sabor da vitória. Ébrios deste prazer, julgam-se senhores do mundo. Com entusiasmo desmesurado, aventuram-se por terras da Galiza, alucinados de bravura, dispostos a bater o inimigo em sua própria casa. Mas tal esforço não lhes corre de feição, já que, depois de curtíssimas vitórias, os lusos são obrigados a retroceder, ante o vigor do adversário, espicaçado pela vaidade nacional ferida, e supridos de tropas frescas.
Vindo os galegos no encalço, os portugueses, desorientados, recuam lá para os lados de Castro Laboreiro. Acossados pelo enfurecido inimigo, pronto a corrigir a desfeita sofrida, as tropas portuguesas não encontram forma de o enfrentar, temendo-se uma ultrajante derrota e o risco de perda da soberania dos próprios territórios!
É então que as mulheres daquele lugar, ao verem os seus desnorteados, e perante a afronta desmesurada dos galegos, corajosas e determinadas, resolvem intervir. E se os homens fogem desorganizados e abandonando as armas, elas, depois de se armarem como os guerreiros, cerram fileiras e avançam sem medo, prontas a salvar o país da ignomínia de uma humilhante derrota.
Perante tal atitude e coragem ficam extasiados e confusos, por sua parte, os castelhanos. É então que os homens lusitanos, provocados pelo exemplo de suas mulheres, resolvem voltar para a luta, envergonhados das suas momentâneas pusilanimidade e defecção. Recuperada a energia e a fé indispensáveis, organizam-se e batem os espanhóis, ainda perplexos pela coragem e força das mulheres de Castro Laboreiro. Esta batalha ficou conhecida por “Empresa das Mulheres”.»
Esta é mais uma das narrativas lendárias publicadas pelo Professor António Campêlo na obra que anteriormente referi. Sobre ela diz-nos o ilustre Professor que: «Esta lenda foi recolhida em Melgaço e encontra-se também referenciada nas monografias locais. Em Castro Laboreiro existe uma tradição oral de que uma mulher, em luta com os castelhanos, de um só golpe degolou sete espanhóis! Perante o poderio do inimigo, é sempre a mulher, na aparente fraqueza do seu género, a ditar o rumo da contenda! A lenda chama a esta batalha “Empresa das Mulheres”. Veja-se que a lenda da Inês Negra fica conhecida nas crónicas com a designação de “Escaramuça entre duas mulheres bravas».

04/06/08

A "belhota"

Eu já tinha ouvido falar dela! Já outros pescadores me tinham dito que a “belhota” vivia há anos nos “Poços” abaixo das “Andorinhas”! Inclusive, já uma vez ou outra eu próprio tinha divisado a sua silhueta pesada e escura a esquivar-se logo que a minha sombra tangia as águas límpidas do rio.
Naquele fim de tarde, lá vinha eu, estourado e com as pernas escavacadas por um dia de pesca que começara manhã cedo no “Salto do Gato”, e ainda por cima desanimado e encharcado pelos resultados: - Uma magra meia dúzia de exemplares de medida que me tinham custado 3 amostras e dois tombos a todo o comprido nas águas frias do Laboreiro. No entanto, quando me aproximei do “Poço” onde residia a “belhota”, uma centelha de ânimo circumnavegou o meu pobre e cansado espírito! Aquele tipo de centelha de ânimo que só os verdadeiros pescadores de trutas conseguem sentir e discernir! Aquela vontade imperscrutável de lutar, de vencer e de colher o ser mais magnificamente instintivo que habita as águas generosas e fecundas do nosso rio.
Lá me aproximei, contra a corrente conforme mandam os cânones, o mais silenciosa e pacientemente que pude e, de forma pausada e comedida, consegui colocar-me numa zona escondida pela sombra de um esplendoroso salgueiral, o que me permitiu observar tranquilamente o rio. Naquele ponto, a água, revolta e voluntariosa, impulsionada pelos vários “cachons” a montante, corria velozmente pelo centro do “Poço” estreito e “acanhonado”, mas nas margens existiam pequenas áreas remansosas onde por certo àquela hora se encontrariam, fartas e gordas, as “pintalgadas” após um aprazível dia a degustar as iguarias trazidas pelas águas.
O primeiro lançamento descreveu uma parábola perfeita e a pequena amostra, uma clássica “Celta n.º 1” esverdeada, caiu cerca de 20 a 25 metros de distância, sob a margem esquerda, logo abaixo do movimentado “cachon” que encimava o “Poço”. Com três ou quatro voltas do carreto consegui trazê-la para a zona remansosa e aí imprimi um movimento lento e constante ao carreto, para que a amostra pudesse desenvolver as suas rotações com a maior estabilidade possível.
De repente, quando a amostra saída do “remanso” atravessava a correnteza do centro do “Poço”, um violento esticão denunciou que uma truta a tinha abocanhado e por isso, acto contínuo, levantei de sacão a ponteira da cana enquanto com um golpe do carreto tentei dar duas ou três rápidas e consistentes voltas por forma a ferrar a “pintona”. Tentei! Porque a resistência que encontrei foi de tal ordem que rapidamente desisti, temente da integridade do fio (uns 100 metros de “Mitchell” n.º 20), bem como do restante equipamento!
Um sobressalto percorreu as minhas fibras mais recônditas! Seria que por qualquer manhoso acaso do destino eu tinha fisgado a velha truta!? Respirei fundo! Toda a gente sabe que um sistema nervoso alterado é o pior inimigo do pescador de trutas. Lembrei-me que em casos como este a solução é abrir a asa do carreto, de forma a, controladamente, “dar fio” à truta com o objectivo de a cansar!
Assim fiz, e a truta, qual torpedo, desembestou para montante na direcção da margem esquerda dando com isso início a uma luta titânica pela sua preciosa vida. Eu lá me fui segurando, ora largando fio, ora puxando fio, enquanto o pobre bicho tentava esquadrinhar o “Poço” em busca de salvação. A luta durou cerca de dois minutos, dois minutos e meio, uma vez que a partir de determinada altura a truta deixou de oferecer resistência e assim, pouco a pouco consegui trazê-la na minha direcção com o intuito de a apanhar, uma vez que tira-la de “sacão” estava fora de questão dado que, muito provavelmente, a ponteira da cana não iria resistir.
Debrucei-me, então, e pude constatar que se tratava de um exemplar magnífico que deveria rondar os 45 cm de comprimento, e que tinha a amostra cravada unicamente na mandíbula inferior, o que aliás se revelou fatal para a minha pretensão, pois que a truta, até aí aparentemente apática, logo que lhe descravei a amostra deu um magnífico impulso, torceu-se no ar e mergulhou no poço, livre e pujante de vida. O mais curioso e rísivel é que ao desenvolver, com sucesso, estes movimentos inesperados, a bicha, enquanto eu esbracejava a tentar segura-la, “sorregou-me” uma valente chapada na cara com a barbatana traseira que, apesar de não me ter magoado o corpo, me magoou profundamente o espírito! E, assim, lá fiquei eu aturdido, de mãos a abanar e com uma estranha sensação de vazio que me custou muito a digerir enquanto subia, estafado e desanimado, pelo caminho dos moinhos em direcção à “Ponte Belha” e à "Bila".
Hoje, a duas décadas de distância e muitas trutas depois, ainda me lembro bem da “belhota” que naquele dia foi suficientemente esperta e valente para me escapar, mas, conforme seria de esperar, já não sinto qualquer tipo de sensação de vazio ou decepção, pelo contrário, sinto um imenso e estranho carinho por aquela bela truta, que não sei se chegou a ser pescada por alguém (espero que não!). Um carinho que abarca, para além das trutas do nosso rio, todos os seres silvestres que habitam a nossa maravilhosa terra.

31/05/08

Melancolia nórdica

Sigur Ros - Samskeity

Ando assim um tanto ou quanto melancólico! Só podem ser saudades de Castro Laboreiro!

23/05/08

O beijo da mulher serpente (continuação)


" (...) Em tempos mais recentes, um jovem, ao saber, por um pastor, da existência da serpente, logo se lembrou da sua terrível história de amor. A mãe da sua namorada contrariava muito seriamente o namoro e afeição que a filha mantinha com ele, facto que os obrigava a encon­trarem-se às escondidas por entre as penedias. Não tardou muito que a mãe desse com o esconderijo dos namorados e, desesperada com a desobediência da filha, lhe lançasse esta maldição:
- «Que de futuro andes de rastos como as cobras no alto do Quinjo».
Passados dias, desapareceu a rapariga sem deixar rasto!
Associando os factos, não restaram dúvidas ao rapaz de que se tratava da namorada que cumpria o fado a que fora condenada pela mãe. A confirmá-lo, lá estava a flor que ele lhe oferecera e que ela, numa atitude garrida, trazia entre os dentes no momento em que recebera a maldição.
Desesperado pela triste sorte da jovem e também pela sua infe­licidade, subiu ao monte e perguntou à serpente quais as possibilidades que havia de lhe quebrar o encanto. Respondeu-lhe esta que bastaria que ele, rapaz, tivesse a coragem de a beijar na boca. Mas, cautela, se à terceira tentativa o não conseguisse, redobraria o seu encanto e não mais podia trazê-la à vida e ao seu amor.
Voltou o rapaz mais tarde, acompanhado com gente amiga, para realizar o desencanto: porém, na altura em que se aproximou da serpente, esta lançou tais silvos e contorceu-se de tal maneira que pôs em fuga todos os que presenciavam a cena. Não desistiu o namorado e, na segunda tentativa, fez-se acompanhar de um padre, para ajudar o ritual com as suas rezas, e, esquecido do que havia acontecido aos outros seus conterrâneos, de um ceguinho que, pelo facto de não ver, poderia substitui-lo no acto de beijar a serpente com menos repugnância. Repe­tiu-se a cena anterior e tanto o padre como o cego fugiram desaus­tinados.
Entendeu o rapaz que teria que ser ele sozinho, e sem a ajuda ou apoio de ninguém, mas amparado pelo amor que nutria pela jovem, a cumprir o feito. Enchendo-se de coragem, aproximou-se da serpente e, sem dificuldade de maior, deu-lhe o beijo, recebendo em troca nos seus braços a namorada. Regressaram felizes a Ribeiro de Baixo, seu lugar de nascimento, e casaram mais tarde na vila”.
Sobre esta lenda e outras congêneres como as das "Mouras" encantadas diz-nos António Câmpelo na obra indicada no "post" anterior: - "A moura-serpente transporta-nos para o encantamento original, que tem a ver com o fado a que está condenada a serpe, ela mesma um espírito das águas subterrâneas. Água e cabelos deambulam sem forma, ao sabor de intenções que lhes são estranhas. Ao solicitar o beijo para a libertar do encanto, a moura apela para o beijo como sopro de vida, e não o beijo amoroso. Este beijo, e a componente oral que lhes está associada, orientam a origem do mundo para um silêncio que se esconde durante um tempo determinado e que, cumprido, se manifesta na vida e no usufruto de todas as riquezas. Não respeitar esse silêncio – segredo – solicitado pela moura, ou introduzir palavras que estão proibidas no ritual de desencantamento, é falhar no resgate da moura amada ou do tesouro desejado".
Tal como também nos diz o Professor Campêlo, Alice Geraldes na sua obra : “ Castro Laboreiro: a mulher na vida e na lenda”, 1978, Mínia, Braga, 2ª Série, 1 (2), pp. 42-64. , também faz menção a esta lenda, traçando uma longa interpretação da mesma, tendo como elemento de análise o género feminino e a transformação dos seus papeis na sociedade de Castro Laboreiro. Segundo esta autora, uma lenda reflectirá a mentalidade mais conservadora e antiga da população, enquanto a versão moderna, a do jovem par de namorados, mostra um novo tipo de enamoramento que supera as diferenças sociais quanto à riqueza.
Ilustração. HR GIGER

15/05/08

O beijo da mulher serpente


“Vivia na montanha do Quinjo, em Castro Laboreiro, uma princesa que tinha sido encantada sob a forma de uma serpente, e que trazia uma flor presa na boca.
Era esta princesa fabulosamente rica e estava disposta a dividir a sua riqueza com quem a desencantasse. Como ia de 100 em 100 anos à feira de Entrimo, em Espanha, altura em que recuperava a sua forma humana, lá contou como deveria proceder a pessoa que estivesse dis­posta a desencantá-la: ir ao Quinjo e dar um beijo à flor que ela, já na forma de cobra, trazia na boca.

Se os séculos foram passando sem que aparecesse alguém sufi­cientemente corajoso para realizar tal façanha, nem por isso se pode dizer que o tempo tenha apagado nos homens a crença no tesouro escon­dido ou tenha esmorecido a fé na sua recuperação, mesmo que para tal se tivesse de cumprir o ritual prescrito pela lenda. A cobiça era senti­mento mais forte que a repugnância e o medo, sem contar ainda que a astúcia humana é de tal forma atrevida e pretensiosa que só por si consegue dar, a quem dela resolva largar mão, uma coragem inicial que na maioria dos casos, se não é condição de sucesso é pelo menos de chegada à última etapa possível.

Foi assim que um dia, levados pela cobiça e apoiados na astúcia, um grupo de homens, tentaram desencantar a princesa. Se o pensaram, logo programaram a aventura, animados pelo facto de um deles conhecer os segredos do livro de S. Cipriano, que ajudaria a tomar o tesouro escondido e defendido pela serpente.

Havia, contudo, uma dificuldade que a todos transtornava e que não viam meio de a superar. Como ganhar coragem para beijar a serpente?
Lembraram-se então os nossos heróis de um cego que havia no lugar e que, pelo facto de não ver, não sentiria repugnância em praticar o acto. Bastante instado, mas sem saber bem ao que ia, o pobre lá anuiu em juntar-se-lhes.
Reunido o grupo no local certo, no dia e hora com­binados, resolveu o animador da proeza, na intenção talvez de melhor avivar os pormenores da façanha, puxar do livro e ler a lenda aos com­panheiros no próprio cenário onde se iria desenrolar o drama. A um dado passo da leitura, porém, fez-se ouvir um barulho medonho que, repercutindo-se pelas fragas adiante, parecia querer fendê-las para delas fazer sair a figura de um monstro.

Nem se interrogaram a respeito do estranho fenómeno: gasta a última reserva de coragem, hei-los numa corrida doida, galgando e des­cendo penedos. na ânsia de alcançar a segurança do lugar onde habitavam que, estra­nho ao facto, recuperava no sono a energia gasta num dia de luta árdua.

Sozinho no alto do Ouinjo, ficou o cego, desprotegido de tudo e de todos, e completamente amedrontado. Valeu-lhe o bordão, seu único apoio e guia, para descobrir forma do chegar a chão seguro e sosse­gado. E chegou, passados uns dias a Pereira, uma pequena povoação espanhola, que lhe deu guarida.

Depois de conhecida a aventura no lugar, nunca mais ninguém daqueles lugares pensou em repetir a proeza.
Continua....."
No início da presente década, Álvaro Campêlo, minhoto nascido em Poiares, Ponte de Lima, Doutorado em Antropologia das Religiões pela Sorbonne e professor de Antropologia Social e Antropologia do Desenvolvimento na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, desenvolveu, enquanto Director do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa, uma investigação que teve por objecto a recolha de tradições orais do vale do Minho, no campo do fantástico.
Os resultados desta investigação foram publicados na obra “Lendas do Vale do Minho” do mesmo autor, editada em 2002 pela Associação dos Municípios do Vale do Minho. Posteriormente, Álvaro Campêlo publicou ainda no “Boletim Cultural” da Câmara Municipal de Melgaço um estudo chamado “O Discurso do Fantástico no concelho de Melgaço”, onde o ilustre Académico, desenvolve, aprofunda e completa os dados recolhidos no concelho de Melgaço.

Neste estudo encontra-se publicada esta “lenda” ou “conto” recolhida pelo autor em Castro Laboreiro. Dada a sua extensão optei por publicar unicamente a primeira parte, a segunda seguirá em próximo capítulo.
Uma última nota para informar aos que não sabem, que o "Quinjo", ou "Quinxo" é uma imponente montanha sobranceira ao lugar do Ribeiro de Baixo, situada em território Galego na margem esquerda do Rio Laboreiro.
Ilustração: HR GIGER