05/07/07

Caras de tapuias tostadas

Castro Laboreiro, 26 de Setembro de 1791:

«Escrevi (…) da Vila dos Arcos, agora faço-o de Castro Laboreiro (…).
Que serras fragosíssimas; que caminhos, que desfiladeiros! O Lugar onde estou actualmente é a Noruega de Portugal: não se vêem senão rochas escarpadas e medonhas; árvores de frutos nem uma só; e até as outras são muito raras: não há milho, nem trigo nem hortaliça de casta alguma; apenas o grão do centeio.

Que lhe hei-de dizer da gente? Estão na sua primitiva simplicidade, sem que o luxo tenha feito aqui a mais leve alteração: homens, e mulheres com o seu respectivo uniforme, do qual nenhum se afasta.
Não há coisa mais feia que o (uniforme) do sexo feminino: uma manta de Saragoça dobrada na cabeça descendo da parte de diante até ao peito, muito cosida com o rosto, sendo que por traz chega quase até ao chão; um avental do mesmo tecido (…), polainas de pano branco, e uns tamancos muito altos, atados com diferentes correias; é assim o vestido geral de todas.
As caras são de tapuias tostadas e disformes, contudo sabem os Mistérios da nossa Santa Religião; amam as coisas de Deus, e não me consta que haja no lugar escândalos grosseiros.
Ficaram contentíssimos de me ver na sua terra, aonde não ia nenhum prelado há cerca de um século; e desde que cheguei, sempre a igreja tem estado cheia de povo.
Queria dizer-lhe mais, pois há muito para contar; mas falta o tempo.»
[Transcrição em português actual da Carta de Dom Frei Caetano Brandão in AMARAL, António Caetano de. Memórias para a história da vida do venerável D. Frei Caetano Brandão. 2 vols. Lisboa, Na Impressão Régia, 1818. 2ª ed. Braga, Typografia dos Orphãos 1867, extracto publicado por Alice Duarte Geraldes in Brandas e Inverneiras – particularidades do sistema agro-pastoril crastejo, Cadernos Juríz Xurês n.º 2, 1996, págs. 13 e 14.]
Esta carta, escrita por Dom Frei Caetano Brandão, Arcebispo de Braga de 1790 a 1805, a quem Camilo Castelo Branco designou como «O mais glorioso vulto das cristandades lusitanas.» expressa o espanto e o assombramento com que o mencionado Arcebispo encarou Castro Laboreiro aquando da sua viagem em 1791 (portanto no Reinado de Dona Maria I -24/02/1777 a 20/03/1816).
É desde logo curiosa a comparação que faz quando diz que «o Lugar onde estou actualmente é a Noruega de Portugal». Também é interessante a descrição que faz sobre a indumentária (uniforme) das mulheres referindo-se à tradicional capa como sendo «(…) uma manta de Saragoça (…)», aos “calçons” como «(…) polainas de pano branco(…)» e aos “soques” como «(…) uns tamancos muito altos (…)atados com diferentes correias».
Depois passa para uma descrição da cara dos Castrejos utilizando uma comparação nada abonatória para os nossos longínquos antepassados. Diz ele que parecem «(…) tapuias tostadas e disformes (…)». Ora os tapuias eram, e ainda são, um grupo indígena que habita o noroeste do estado brasileiro de Goiás , que o Dom Frei Caetano conhecia por ter sido entre 1782 e 1790 Bispo de Belém do Pará. Claro que para um indivíduo habituado às peles lustrosas que frequentavam (como ainda frequentam) as cortes e os Paços episcopais, aquela pobre e sofrida gente que mourejava dia a dia sob as inclemências do clima da montanha com as consequências que daí advém para a pele do rosto, pareciam «tapuias disformes».
Apesar desta comparação nada feliz para os nativos de Castro Laboreiro, tem que ser dado o mérito ao Dom Frei Caetano de lá ter ido, pois isso revela-nos uma preocupação, pelo menos, com o bem estar espiritual daquelas pessoas, tanto que diz ele àquela terra «(…) não ia nenhum prelado há cerca de um século (…), embora não «(…) haja no lugar escândalos grosseiros» (presumo que o nosso Arcebispo se quis referir a incestos, concubinatos e escândalos do género).


Imagens do Arcebispo Dom Frei Caetano Brandão


Como podem ver o Dom Caetano também não vestia lá muito bem de cara!

Parece um Kiwi!

Esta é a estátua de Dom Frei Caetano Brandão existente em Belém do Pará.

Aqui está mais favorecido!

04/07/07

Castro Labrador!? Uma teoria (im)provável!?

Sabem que há quem diga que:

«A origem do Retriever do Labrador não é claramente definida, mas sabemos que ele veio da costa leste do Canadá na área de Newfoundland (Terra Nova) e St John's Island (ilha de São João), sendo que essa área se localiza ao sul de Labrador. No início do século 18, pescadores do litoral Atlântico da Europa (nomeadamente Portugueses) iam para Newfoundland pescar e utilizavam o cão local, que parecia ser um cão de mil e uma utilidades: Carregavam lenha no inverno, subiam terrenos onde cavalos não podiam e ajudavam os donos na pescaria durante o Verão. Sem dúvida, os cães levados pelos pescadores de seus países (dos quais, muito provavelmente, o Castro Laboreiro) cruzaram com os cães locais e assim nasceu o Retriever do Labrador (…)»


E sabiam ainda que:

O nome Labrador (ou península do Labrador) é um dos nomes de origem europeia mais antigas do Canadá, quase tão antigo quanto o nome Newfoundland (Terra Nova). A região do Labrador foi nomeada em homenagem ao explorador português João Fernandes Lavrador, que, juntamente com Pedro de Barcelos, avistaram a região em 1498, portanto cerca de 6 anos após o desembarque de Cristóvão Colombo na “Hispaníola” (actual ilha do Haiti).

Mapa da Península do Labrador, da Ilha da Terra Nova e de outras ilhas e terras no Golfo de São Lourenço:



03/07/07

Baldios II

Pelo Blog “CASTRO LABOREIRO” fiquei a saber que, em Castro, há já duas Assembleias de Compartes e, no próximo dia 8 de Julho vai ser constituída mais uma, chamada Baldio de São Bento e composta pelos compartes de Portelinha, Vido e Várzea Travessa!

Pergunto-me sobre o porquê de estarem a surgir Assembleias de Compartes como cogumelos (cogordos, como se diz em Castro). Qual será o interesse em fragmentar a Administração dos Baldios? Será que descobriram petróleo no “Coto de Esfola Lobos” ou gás natural na “Lama do Vido” e não querem dividir com os outros?

O que é que se passa afinal? Será que estão ter noção dos problemas que podem advir desta fragmentação? As fronteiras entre as zonas territoriais de gestão das respectivas Administrações de Compartes já estão definidas? E se não estão quando, onde e como vão ser definidas?

De facto, gostava muito de saber quais os interesses (económicos?; políticos?) que subjazem a este movimento desagregador da Administração dos Baldios Castrejos!

Será que alguém (bem informado!) me pode explicar o que se está a passar?

02/07/07

Quinhas e a Viagem ao Princípio do Mundo


Em Castro não há quem não conheça a “Maria Carboeira”, mais familiarmente tratada por “Quinhas”. O que poucos sabem é que a Quinhas foi figurante involuntária no filme “Viagem ao Princípio do Mundo” de Manoel de Oliveira, rodado parcialmente em Castro e que tem a particularidade de ser o último filme de ficção protagonizado pelo grande Marcello Mastroianni (1923-1995)! Ah pois é!

http://www.madragoafilmes.pt/viagemaoprincipiodomundo/#

Aliás a cena onde ela aparece é hilariante, pois trata-se de uma filmagem feita sobre o Eirado, a partir da varanda da casa dos Canavezes. A “Quinhas” está junto ao cruzeiro de braço no ar a vociferar contra o cameramen e a manda-lo para aquela parte, como, aliás, sempre faz a todos os desconhecidos (e a muitos conhecidos!) que encontra a jeito.

Grande Quinhas! É assim mesmo! A autenticidade acima de tudo!

29/06/07

Gravuras do Castelo de Castro Laboreiro e o Livro das Fortalezas






(Estas gravuras são pertença de José Domingues co-fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro)

A autora destas belas gravuras (datadas do ano de 2001) é a Dr.ª Martine Rodrigues, esposa do Dr. José Domingues co-fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, a quem faço aqui a devida vénia pois, como podem ver, as mesmas são notáveis e inspiram-se, visivelmente, nos “debuxos” do Castelo de Castro Laboreiro feitos, cerca de 1509, por Duarte de Armas no Livro das Fortalezas (existem duas vistas – Norte e Sul - e uma planta).

Sobre o, interessantíssimo, Livro das Fortalezas veja-se aqui. Além do original arquivado na torre do tombo existe um Fac-Símile publicado pelas Edições Inapa:



De salientar que este Livro contém a prova documental que no Reinado de Dom Manuel I (25 de Outubro de 1495 a 13 de Dezembro de 1521), a Torre de Menagem ainda existia. De facto, foi só em 18 de Novembro de 1659 (portanto, durante o reinado de Dom Afonso VI, mais concretamente durante o período da regência de Dona Luísa de Gusmão e em plena Guerra da Restauração – em 14 de Janeiro de 1659 ocorreu a batalha das Linhas de Elvas vencida pelo exército português) que se deu a famosa explosão no paiol da pólvora que destruiu a bela Torre de Menagem do Castelo da nossa Terra (o documento que prova este acontecimento histórico foi publicado por Alexandra Cerveira Pinto Lima, in Castro Laboreiro – Povoamento e Organização de um Território Serrano, Cadernos Juríz Xurês n.º 1, 1996, pág. 55, nota 38.) Maldita explosão que nos privou daquele que seria, sem qualquer sombra de dúvida, o Castelo roqueiro mais imponente de Portugal!

28/06/07

Fotografias antigas de Castro






Fotografias antigas tiradas por António Jorge Barros (fotógrafo do Parque Nacional da Peneda Gerês) e publicadas no albúm "Regressos":




Cadelo

Olhem só para este!
Aposto que viu alguma cadela interessante!?






Baldios

Pelas notícias que me chegam através do Blog “DESABAFOS DE CASTRO LABOREIRO”, há uma séria (ou pelo menos insólita!) polémica sobre a administração dos baldios em Castro Laboreiro.
Ora, para mim, a existência de polémicas desta natureza em Castro é algo verdadeiramente inédito pois (tanto quanto sei!), os baldios foram sempre respeitados e administrados de forma serena e consensual. Isto mesmo durante a campanha de florestação desenvolvida pelo Governo de Salazar durante os anos 40 e 50 do século passado (ao contrário de outras freguesias do país que se revoltaram por considerarem que lhe estavam a roubar os pastos para o gado – o que num elevado número de casos era mesmo verdade!)
Como estou longe do centro da polémica e por isso há dados que me faltam, gostaria que alguma alma caridosa e minimamente bem informada me explicasse porque é que, no ano de 2007, se levanta uma polémica acesa (pelo que vou sabendo!) sobre a administração dos baldios de Castro Laboreiro?
Será que alguém é suficientemente simpático e despretensioso para me pôr ao corrente?

27/06/07

O COLMO



“Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que não fosse afinal.
Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça. A relva dera lugar finalmente à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e tinha chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome.”


MIGUEL TORGA in «Portugal»

Longe de Castro Laboreiro

Quanto mais os anos passam, mais eu me sinto longe de Castro Laboreiro! Nasci lá sabem? Há já quase quatro décadas! Nasci num tempo puro e primordial, simultaneamente agreste e belo e por isso, tive uma infância muito feliz que me apetrechou para a vida, mas depois chegou aquela hora que todos os Castrejos da minha geração conheceram: -A hora de partir!

E assim, numa "manhã submersa", lá fui eu, não para "as Franças" como tantos outros, mas para outro estrangeiro: - Portugal. Não para trabalhar, mas antes para estudar e conseguir aquilo que os meus pais, como todos os pais castrejos, almejaram e continuam a almejar para os seus filhos: - Uma licenciatura que lhes permita viver uma vida menos rude e esforçada do que aquela que eles tiveram de enfrentar.

Foram tempos duros podem crer! Uma criança na pré-adolescência colocada num mundo totalmente diferente daquele onde nascera, um mundo tão diferente em que até as palavras e a sua entoação eram outras, onde não chegava o cheiro das manhãs de Primavera de Castro, onde não se ouvia o alegre chilreio dos pássaros nas carvalheiras da minha terra. Tive muitas saudades! Muitas saudades! De tudo, até das pedras e do frio do inverno. Mas bom! O tempo passou e lá me fui integrando e acabei por cumprir o desígnio dos meus pais (e que também foi o meu), justificando assim o investimento afectivo e financeiro que em mim fizeram.

Depois veio a profissão, o casamento, os filhos e as novas raízes foram brotando e fixando-me longe de Castro Laboreiro. Mas a minha verdadeira raíz guardo-a no canto mais luminoso do meu espírito e não há um único dia em que não me lembre da minha terra e da minha infância feliz em Castro Laboreiro.

Por isso, por me sentir longe mas simultaneamente perto, decidi criar este Blog. Para falar de Castro Laboreiro na perspectiva de um Castrejo migrante. Para falar da terra, da sua história e da sua evolução nas últimas décadas, mas também para falar dos problemas do dia a dia dos Castrejos, das polémicas que nos últimos anos tem criado divisões numa comunidade caracterizada por uma união cimentada ao longo de séculos a enfrentar um meio hostil.

Peço por isso a colaboração de todos os meus conterrâneos (os que lá estão e os que estão longe como eu!) e de todas as outras pessoas que queiram falar sobre Castro laboreiro.

Ajudem-me, por favor, a tornar este Blog um veículo de compreensão mútua e de aprofundamento dos laços que unem todos aqueles que amam verdadeiramente Castro Laboreiro.